Cardiograma

Luís Eduardo Tebaldi Gomes

Mesa, pasta, cartão, porta giratória. Bolso, chave. Carro. Porta, banco reclinável, cinto de segurança, espelho, retrovisor, freio de mão, embreagem, marcha ré, acelerador. Volante, embreagem, marcha, acelerador. Rádio, janela, retrovisor, pisca. BUZINA. Freio, freio, freio. Freio de mão, porta-luvas, lenço de papel, freio de mão, embreagem, marcha, acelerador (...) Sirene. Freio, embreagem, marcha, acelerador, volante, freio. Sirene, freio de mão, pisca alerta. Porta-luvas, CD, rádio, botão de volume, janela, ar condicionado. Buzina. Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, freio, freio de mão. Buzina, BUZINAS. Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, freio, freio de mão. Porta luvas, cigarro, cinzeiro, ar condicionado, janela, botão de volume, sapato. (...) Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, Ambulância, maca, lona, para-médicos, buzina, BUZINAS. Embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, ar condicionado, janela. (...) Freio, embreagem, ponto morto, freio de mão. Porta, bolso, chaves, porta, Calmante.

Ângelo

Vitória Leiria

Ângelo, filho de uma costureira, Clara, e de um torneiro mecânico, Pedro, crescera em meio às linhas e agulhas.

Quando Ângelo completou sete anos seu pai, com certa desconfiança e receio quanto ao futuro do filho, passou a ensinar-lhe o seu ofício levando-o todos os dias para a oficina depois da escola.

Na escola, Ângelo, aparentemente, demonstrava ser um aluno normal, taciturno, retraído. Porém um dia ele desentendeu-se com um colega que o chamara de “bicha”. Nesse dia seu pai foi chamado à Escola e foi então que ele começou a desconfiar que algo não ia bem com Ângelo.

- A irmã Sofia irá atendê-lo num instante. Disse irmã Teresa.

- Sr. Pedro, por favor, entre!

- Irmã, o que aconteceu?

- Seu filho brigou com um de seus colegas de turma. Foi preciso duas pessoas para separar os dois. O Ângelo estava enfurecido. Não tivemos outra opção a não ser chamá-lo.

O pai, após saber do motivo da briga, ordenou que Ângelo ficasse de castigo naquele fim de semana.

O menino passou, sem que a mãe e o pai soubessem, a olhar as revistas de moda que a mãe guardava na sala de costura. Alguns dias depois, Ângelo arrancou uma página da revista e colou em álbum de fotos.

Clara, sempre ocupada com as clientes, não dava muita atenção para o filho. Na escola, Ângelo, depois da briga, fez amizade com um colega de turma, Patrício. Os dois passaram a se ver todos os dias. Para estudar, jogar vídeo game, andar de bicicleta ou simplesmente ver TV.

O ano escolar terminou e Ângelo sempre às voltas com o amigo Patrício.

As famílias se encontraram para os festejos do Natal. Uma convivência que aparentemente começara de forma inocente, pelos filhos, prometia distribuir bons frutos. E assim, ano após ano, reuniam-se em churrascos de aniversários e para os festejos de fim de ano.

Não foi surpresa quando, alguns anos mais tarde, os dois meninos, já adolescentes terminando o segundo grau, anunciaram que fariam vestibular para medicina. Pretendiam ser cirurgiões plásticos. E assim se sucedeu. O que ninguém suspeitava é que iriam cursar faculdade no exterior e morar no mesmo alojamento. Uma luzinha amarela começou a piscar na mente do pai de Ângelo, ou melhor, dele e na mente do pai do Patrício. As mães, envolvidas com suas tarefas caseiras e de profissão, não se envolviam muito com as tarefas da educação dos filhos. Os maridos assumiam inteiramente a tarefa, e demonstravam preocupação mútua, nas conversas presenciais e por telefone.

A preocupação não era sem fundamento. Tanto que, no ano seguinte, no natal, os dois compareceram muito alegres, fluentes no papo, demonstrando estarem muito entrosados. A conversa seguiu normal. Apenas na saída, momentos antes de voltar à faculdade, o pai de Ângelo viu algo que poderia denunciá-los. Viu Ângelo passar a mão no rosto do amigo ao entrarem no carro.

No aniversário de Ângelo os pais resolveram ir visitá-lo.

A terra se abriu aos pés de Pedro e o engoliu. Foi essa a sensação que ele teve ao saber do filho de suas preferências sexuais. Ângelo era gay. A mãe chorando abraçou o filho, enquanto o pai, em ebulição, já vislumbrava as portas do inferno sentindo os efeitos de um enfarto fulminante.

Acontecimento histórico

Volnei Zerbielli

Era domingo, eu e todos os viventes daquela estância, estávamos na frente da igreja esperando pelo maior, - e quem sabe até - o mais importante acontecimento histórico, que poderia acontecer naquele pedaço do Rio Grande, na época.

O dia tava bonito, ensolarado, o Minuano tinha dado uma trégua; pois tinha feito muito frio nos últimos dias, mas mesmo assim, tava todo mundo de poncho e casacão, que ninguém era bobo.

Aquele dia foi um dia especial, todo mundo vestido com a melhor roupa do armário. Nem nas missas, quando o vigário vinha a cada quinze dias, o povo se arrumava tanto. As prendas numa belezura só, a peonada toda de fatiota, gravata, bombacha e chapéu de aba larga, - estes não sobraram nenhum no bolicho pra contar a história -, todos queriam estar a preceito para o acontecimento.

Era um entrevero na frente da igreja; eu nem sabia de onde tinha saído tanta gente. Veio gente de todo lado, veio gente até da capital. Estes chegaram de carro, um tal de Ford T, mais conhecido por Ford Bigode. Teve gente que veio de carro de boi, charrete e a cavalo, afinal de contas ninguém queria perder o acontecimento que era por de mais importante.

Enquanto o dito fato não acontecia, o seu vigário, aproveitando a ocasião; ainda mais que tinha gente importante, vinda da capital, começou a discursar, a falar das coisas de Deus e do que representaria o tal acontecimento para a história das pessoas do vilarejo.

O povo já tava começando a ficar meio inquieto, e o vigário ali tentando controlar a multidão. Foi quando lá longe se avistou uma poeira levantando no estradão, ela foi aumentando à medida que chegava mais perto, com isso povo, que começava a ficar inquieto, começou a se ajeitar, dar a última conferida nas vestimentas; tava chegando a hora.

A poeira baixou. De cima da caçamba de um pequeno caminhão, armou-se um tripé, em cima desse tripé, uma caixa com um formato estranho, com um pano preto atrás. A multidão atenta aos gestos do homem da caixa no tripé, posicionada, aguardava o desfecho.

O fato acontecido naquele dia percorreu por vários lugares do mundo, possibilitou para algumas pessoas encontraram e reverem parentes distantes, outros puderam ver os seus antepassados e ter uma idéia de onde vieram, como surgiram, como eram as pessoas dá época.

Para as pessoas que lá estavam aquele dia, era um momento único e especial, pois de alguma forma e de alguma maneira, elas estavam dizendo para todos aqueles que um dia deixaram para trás e para aqueles que desejassem ver e saber como eles estavam.

- Eu estou aqui, estou feliz, muito feliz e quero compartilhar esse momento, imortalizado-o em um retrato.