Vida de herói aposentado

 

Juliano Barreto Rodrigues

O Super-Homem, já velho e cansado, substituído por outros super-heróis da moda, com roupas mais brilhantes e assessorados por seus marqueteiros profissionais, se deparou com uma situação jamais tinha cogitada em seus tempos áureos: precisava fazer um exame de próstata.

Vivendo hoje de lembranças e respondendo inúmeros processos movidos por donos de imóveis destruídos por seus embates com vilões, canais de televisão que o acusam de declarações que os prejudicaram, associações que questionam seus métodos, etc, gasta boa parte do seu tempo em reuniões com advogados e em tribunais pelo mundo. E agora isso, ter que se preocupar com um órgão que nunca pensou que existia.

Temendo os paparazzi e preocupado inclusive com sua própria auto-confiança, relutantemente marcou a consulta para o dia 20.  Como um homem da antiga, representante dos heróis do passado, preferiu ir sozinho.

O médico pediu que tirasse a sunga, depois a calça, declinasse para frente e relaxasse. Constrangido, o Homem de Aço disse:

- Doutor, vá com cuidado e, por favor, não conte a ninguém que estive aqui.

- Calma! Vou começar.

No que o médico penetrou o dedo, o super-esfíncter se contraiu de uma vez, amputando o pobre médico. Naquela situação absurda, Super-Homem passou a viver mais um dos pesadelos de sua condição: ficou exposto na mídia e responde a mais um processo de indenização milionário.

Carro novo



Juliano Barreto Rodrigues

- Mas o que você tá querendo, mulher?

- Ah, sei lá, o Carlos me ofereceu o carro novo, um apartamento e uma pensão mensal, mas quer ficar com a casa.

-Tá! Então, o que você quer?

- Quero a casa. Nem gosto muito dela, mas não vou deixar ele morar lá com aquela vagabunda. De jeito nenhum! Esse gostinho não vou dar pra eles.

- Mas se não é o melhor pra você e seus filhos, por que não abre mão disso?

- Filhos? Que filhos o quê. Vou mandar tudo pra casa do pai. Acha que vou ficar presa em casa? Ele que se vire pra cuidar, vamos ver se aquelazinha vai aguentar. Não foi ele que quis sair? Então leve a mala.

- Pô, como você é cabeça dura. Seria bem mais fácil fazer tudo de forma amigável. Até porque, há muito tempo, você não quer saber mais dele... Não dificulte, né querida!

- Já decidi. Só assino a porcaria do divórcio se ele me der a casa. E quero uma pensão bem gorda, não vou mudar meu estilo de vida. Puta merda, nunca esperava isso dele: tão pamonha, pegou a vizinha bem debaixo do meu nariz. Eu, inocente, achando que ele só queria saber de trabalho.

- Certo. E nós, como ficamos?

- Para, né?! Tô falando de coisa séria e você apertando meu peito. Tá pensando o quê? Vamos continuar do mesmo jeito de sempre. Até porque, você é sócio dele e não quero ver minha mina secar. Se quiser é assim. Continue bem casado e faça ele me dar logo a casa.

E se eu morasse no Alasca?


Luana Ruas

Como disse certa vez o singular Renato Russo, “Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia...”. E nestes últimos dias, só o que lembro é desse calor surreal que se instalou na cidade. Cada dia eu acordo mais triste; quando o relógio desperta, logo penso: Ah não! Vou ter mesmo que sair do meu Polo Norte particular e encarar o bafo.

Mas, sim, tenho. E essa é a realidade, meus queridos. Esse calor tá por demais da conta! Lembro de verões quentes, mas nunca como esse. Outro dia estava saindo do trabalho, num final de tarde. Me sentei num banquinho protegido por um sobra, na esquina da rua Olavo Barreto Viana com a Avenida Vinte e Quatro de Outubro. Ali fiquei esperando a minha carona. Sim, carona. Porque além de quente, não tem ônibus na minha cidade há uns 10 dias, mais ou menos. Enfim, não era sobre a tragédia do transporte que eu estava a me lamentar. Estava eu no dito banquinho, olhando para o trânsito. O sol parecia mais um laser gigante que tomava conta do céu; o asfalto parecia que ia descolar, como aquelas miragens dos desertos que vemos nos filmes. Naquele momento pensei: isso só pode ser o Capeta tentando subir à Terra e empurrando para cima o calor do fogo do Inferno. Mas não, não é. Isso é verão, minha gente, e dos bons (para os que estão em férias).

E como eu estava esperando uma amiga para pegar carona, ali fiquei eu, derretendo e pensando: será que é assim em todos os lugares? Será as pessoas sofrem assim com o clima? Eu mesma respondi minhas indagações, analisando os lugares que conheço. O Rio. Cidade Maravilhosa! Aham, sei. Quente sim, bem quente, mas os 40 graus deles ainda não superaram os nossos 30. O Nordeste? Só que não, como dizem por aí. Lá pros lados de Recife, Fortaleza, Rio Grande do Norte é mais quente que no Rio, mas ainda estamos na pior em relação a eles. Agora, Cuiabá. Meu Deus! Esse povo eu respeito. 50 graus? Lá nem piolho resiste na cabeça das pessoas. Acredito que esse calor que temos aqui ou em Cuiabá se torne mais insuportável pela ausência de uma enorme costa litorânea no meio da cidade. Tanto o Rio como as cidades nordestinas, no auge do verão, ainda contam com a colaboração da natureza, que manda uma brisa, mesmo que pouca, vinda do mar. Melhor que bafo do inferno, né?

Agora, e se eu morasse no Alasca? Tá, tudo bem, o Alasca é longe. Nesses lugares mais frios, como é? Nas últimas férias de inverno me fui a Buenos Aires. Julho, no auge da alta temporada. Minha mala estava recheada de toucas, mantas, luvas, botinhas peludas e tudo mais o que eu poderia (e gostaria de usar). Chego lá esperando o frio quase do Alasca e... 25 graus? Tá de brincadeira! Me enganaram. Não estava frio. E eu que achava que lá ia ter até uns floquinhos de neve pra cobrir meu gorrinho preto e me dar um super resfriado. Me dei mal. Acho que não existe mais inverno de verdade. Só no Alasca mesmo.

Olha, se eu morasse no Alasca, eu ia viver com frio, minhas “ites” respiratórias ativas, ia pesar uns 15 quilos a mais, de tanto tomar sopas e chocolate quente tentando me aquecer, meu cabelo ia ser seco, feio e espigado e, sim, eu ia reclamar do frio. Então, como nós, humanos, somos eternamente insatisfeitos com alguma coisa, eu fico por aqui mesmo, esperando o calor passar na minha quente Porto Alegre.