Apelo

Ana Carotti

— Oi, é a Sharon?
—Sim, quem é?
— Gabriel. Voltei de viagem. Preciso falar com você.
— Ah, sim… Desculpe. Quer retomar as sessões? Nossa, quanto tempo! Tenho um último horário já ocupado e depois não atendo mais.
— Sharon, é de suma importância te ver, digo, conversar com você. Voltei de muito longe e foi uma viagem muito difícil.
— Foi atrás de outro vilão?
— Digamos que sim.
— Não o pegou, assim como aquele Psicopata Castrador que procura? É por isso que deseja me ver?
— Nesse caso o peguei.
— Parabéns!
— Não há o que comemorar. Posso passar em seu consultório?
— Te ligo. E se o outro paciente deixar de vir, conversamos.
— Pode verificar agora? Fico na linha.
— Bom... Na verdade ele já disse que está a caminho, infelizmente não há horário disponível hoje. Depois desse paciente, tenho que fechar o consultório.   
— Por favor, doutora, nem que seja por alguns minutos, tenho que te encontrar.
— Mas tenho que sair logo em seguida.
— Está a pé?
— Geralmente pego um taxi.
— Para onde?
— Botafogo.
— Te levo. 
— Nossa! Agora estou preocupada. Pode me adiantar o que está lhe incomodando tanto?
— Acredite, será melhor falar pessoalmente. É caso de vida ou morte.  
Sharon silenciou-se
— Sharon? Você sabe que trabalho em uma delegacia, acabo sabendo das coisas. Preciso...
— Sim, precisa falar comigo.
— Estou preocupado. Estou observando uma imagem onde você está saindo do banheiro feminino do posto de gasolina momentos antes daquele filho da puta que procuro há mais de um ano matar duas mulheres. O Psicopata Castrador. Como mencionei em diversas sessões e você leu nos jornais; ele tortura, castra e mata suas vítimas. Preciso lhe dar dicas para não se tornar uma vítima.
— Me diga, como você poderá me proteger desse psicopata?
— Reconheci alguns comportamentos padronizados momentos antes de realizar o crime.
— Quais?
— Ele monta um altar, com santos e flores, perto do local onde planeja atacar. Vejo um altar perto de seu consultório, nesse exato momento.
— Espera, meu paciente está chegando... Olá. Pode entrar... Gabriel, vou ter que desli-


Dia de sorte

 Ana Beatriz Cabral

Meu nome é Dias. Dias D. Sort. Não é um nome, é um vaticínio. Eu sei. Coisas de pais neohippies da década de 60. 2060, entendam bem. Quase cinquenta anos depois, me acho aqui, talvez com alguma sorte. Decidam vocês.

Naquela manhã resolvi ir ao trabalho de carro. Sou um homem às antigas. Com a proliferação de implantes de teletransporte e a diminuição da população, as ruas ficaram mais vazias.  Mas eu ainda não me acostumei com o efeito desse dispositivo. Tenho visões. 

Voltando àquela manhã, estava sentado à mesa, lendo o jornal holográfico do dia, quando ela entrou. Sentou-se em frente ao meu chefe que quase derrubou o café, mas manteve a pose. Ela não percebeu ou fingiu não perceber o efeito que causava no ambiente.

Só tem homens no escritório. Só tem homens no prédio. E no quarteirão também. As mulheres se rebelaram por volta de 2087 e ocuparam Marte, fundando uma colônia inteiramente feminina. Na saída, levaram os estoques dos bancos de esperma e os animais de estimação. No Planeta Terra só tem homens e ratos. Atualmente, mais ratos que homens, já que a reprodução foi descontinuada e todas as tentativas diplomáticas de trazê-las de volta falharam.

Então, a visão daquela deusa era algo semelhante à bomba de Hiroshima naquele escritório poeirento. Não tive dúvidas, levantei e fui andando na direção dela. Precisva comprovar que não era outra holografia. Fiquei perto o suficiente para observar a criatura. Provavelmente sintética,feita no Japão, sob encomenda. Acabamento de primeira, sem falhas na pele. Japão, não, devia ser russa. As bonecas robóticas japonesas sempre tinham olhos enormes. Russa, com certeza. Loira, olhos azuis, meio tristes, tailleur bem cortado. Coisa fina.

Meu chefe me olhou de soslaio e disse – anote.

A história triste era a seguinte: mestre desaparecido há dois dias. Sem contato. Pessoa importante da sociedade. Não podia revelar o nome. Sua bateria estava acabando, se não encontrasse seu mestre em 24 horas, o único com o código de acesso ao carregador, entraria em modo hibernação. Inútil para sempre. Ninguém mais poderia usufruir daquela deusa cibernética. Uma pena!

 – Vá com ela – disse o chefe.

Todo meu corpo tremeu, pelo menos as partes originais dele. 

A limo flutuante ancorou na varanda do escritório. Ela entrou. Eu atrás dela observando aquelas curvas perfeitas. Deu o comando de voz – para casa - e o veículo partiu na velocidade da luz.
Saíamos da atmosfera e entramos em um daqueles condomínios orbitais que só se via em anúncios. A propriedade era monumental. Um castelo cheio de serviçais. Ainda bem que eu era um homem das antigas.

O mordomo nos recebeu com bebidas e trajes prêt-à-porter encapsulados. Já era quase hora do jantar. Adentrei o recinto empertigado no smoking sob medida automático. Ela trajava um longo azul de veludo. Um decote mais profundo que o Grand Canyon.  E ainda lia meus pensamentos obscuros. Certamente, tinha o módulo empatia original de fábrica.

Enquanto meu olhar deslizava no abismo do decote, me dei conta da bela armadilha em que caía. Onde estavam aqueles olhos tristes? Não havia Mestre sumido algum,era um artifício.
Eu tinha poucos minutos para pensar em alguma solução. Já imaginava ela e seu dono desfrutando das partes originais do meu corpo - e no mau sentido do termo. Na hora, me arrependi de não ter aproveitado a oferta do aplicativo de inteligência Smart Plus. Teria que me virar com os meus instintos básicos mesmo.

Ela me guiou para um sofá enorme e me serviu outra bebida. Percebeu meu desconforto e sentou-se bem perto de mim. A boca carnuda, vermelha e entreaberta exibia uma língua nervosa entre dentes perolados e discretamente alongados. A boneca era romena.Dei um gole rápido no Brandy. Perfeito. Derrubei o resto do liquido no vestido azul. Afastou-se com horror. Nenhuma mulher, sintética ou não, permanece bem humorada com um vestido manchado.

Acionei o dispositivo de teletransporte implantado no cotovelo esquerdo. Apareci no trabalho, conforme programado, nu em pelo.

- Já chegou? – Perguntou o chefe, sem demonstrar espanto.

Peguei a roupa sobressalente na gaveta e me vesti.

- E o mestre sumido? Descobriu quem é?

- Conde Drácula – respondi.

Ele riu. Eu não. Ainda sob efeito do deslocamento molecular, achei os dentes do chefe muito pontudos para o meu gosto...






O dia em que Alice se libertaria de sua existência estressante



Yvonne Morozetti

Eram seis e quarenta da manhã, Alice levantou sobressaltada. Mais um dia em que seu ideário matutino teria que ser adiado. O despertador tocara há quarenta minutos e mais uma vez ela desligara e voltara a dormir. Agora ela teria apenas vinte minutos para se aprontar e estar na portaria do prédio, distante quinze minutos da estação de metrô que a levaria à estação de onde partiria o trem para a cidade onde trabalhava. Isso implicaria ficar em jejum até o horário de intervalo do trabalho. Não é à toa que seu estômago doía diariamente.
Ela tinha exatos oitenta minutos para estar diante do relógio de ponto de seu andar marcando o início de sua longa jornada de trabalho. Sim, há duas semanas ela estava trabalhando duas horas a mais por dia, compensando as saídas antecipadas e pontos facultativos decretados em razão dos jogos da copa.
       Só de pensar nisso ela se irritava, odiava futebol. Não queria ter deixado o trabalho para “torcer pelo seu time”. Sem contar que nesses dias o seu deslocamento era mais desgastante, pois todas as pessoas eram dispensadas no mesmo horário. Pior, ela tinha que aturar aquela efusão de alegria, de cantorias, de esperança na vitória que “tornaria os seus dias menos penosos”, como lhe diziam os colegas de trabalho.
     Sua rotina matutina era toda cronometrada. Além dos quinze minutos a pé até a estação de metrô, levava cinco minutos até a plataforma de embarque e, após doze minutos, desembarcava na estação onde pegaria o trem. Mais cinco minutos até a plataforma de embarque e mais vinte minutos até a cidade onde trabalhava. Restariam três minutos para chegar ao trabalho e marcar o ponto no horário.
       Mesmo que corresse não seria possível chegar em três minutos. Num passo acelerado ela costumava gastar doze minutos caminhando. Daí tinha que pegar o elevador e dirigir-se até o último andar do edifício, onde marcava o seu ponto. Com muita sorte concluía esse percurso final em três minutos, quando o elevador estava em funcionamento normal.
      A tolerância de atrasos era de quinze minutos por mês, e ela já a havia ultrapassado, o que significava que teria desconto em sua folha de pagamento. Tinha a esperança de chegar até o limite de tolerância diária - de dez minutos -, por força do horário móvel concedido ao pessoal do seu nível.
     Naquele dia Alice resolveu encurtar o tempo gasto de sua casa até a primeira estação. Saiu correndo e, após onze minutos, conseguiu chegar à estação do metrô. Três minutos depois embarcou no trem que estava fechando as portas. O próximo passo agora seria desembarcar correndo, chegar à plataforma para pegar o trem, conseguir sentar-se de modo que pudesse se maquiar e, finalmente, estar apresentável quando chegasse ao trabalho.
     Chegaria despenteada, é certo, pois teria também que correr da estação até o prédio onde trabalhava. Mas ao menos estaria pintada, com corretor de olheiras, blush, rímel, batom e lápis de sobrancelhas, itens mantidos na sua necessaire.
     Agora, já próxima à plataforma, concentrava seu pensamento no local onde sentaria. Preferia a poltrona do corredor, daquelas fileiras que continham duas poltronas, situada no penúltimo vagão, à esquerda, penúltima fileira, de forma a evitar a multidão que preferia o vagão que parava em frente à escadaria.
    No entanto, hoje, como precisava diminuir o tempo gasto com o deslocamento, teria que entrar no vagão central, descer na plataforma em frente à escadaria que, após os trinta e dois degraus, a levaria à avenida distante, na melhor das hipóteses e se fosse correndo, dez minutos do prédio onde trabalhava.
     Ao chegar à plataforma ela correu para o ponto que a deixaria em frente à escadaria. Dessa vez não poderia postar-se atrás da linha amarela como fazia habitualmente, pois as pessoas furavam a fila e se colocavam no primeiro lugar de embarque, sobre a linha amarela. Ela então se postou sobre a linha e mirava a luz do trem que vinha chegando.
      Por uns instantes lembrou-se de uma frase que costumava dizer às amigas quando lhe diziam que havia luz no fim do túnel. Sim, ela replicava, certamente é o trem na contramão.
     Mal concluiu o pensamento e sentiu um forte tranco em suas costas e o grito histérico das pessoas ao seu redor, fundindo-se com a buzina estridente do trem que se aproximava.
    Logo hoje que era o dia que ela pretendia começar diferente, levantando calmamente, a tempo de tomar café, de se maquiar em frente ao espelho de seu minúsculo banheiro, vestir-se e apreciar o visual em frente ao espelho do quarto, descer os três lances de escadas que a separavam da rua e andar calmamente até a estação, pensar calmamente sobre como seria o seu dia, relembrar o sonho, enfim, logo hoje...
   No noticiário da noite, o repórter disse que a jovem fora empurrada por um louco. Maicon era seu nome. Branco, cabelos castanhos e olhos azuis. Não portava documentos. Ao ser algemado, disse estar sendo perseguido, que queriam matá-lo e precisava entrar logo no trem para fugir do homem que o perseguia.
     A jovem morreu na hora. Chamava-se Alice Santana. Tinha 29 anos, era parda, tinha cabelos e olhos pretos. Estava sozinha na estação. A polícia ia procurar por parentes.