O Conluio dos Bichos

Maurílio Menezes




Era uma vez um gato com asas. Todos na Avenida da Lã Vermelha se perguntavam por que o senhor Bigode Fofinho estava já há vários dias passando suas tardes esticado no parapeito do prédio em que vivia; um suntuoso apartamento com vista para a Clareira do Soninho e a rua do Rabo Molhado.

— Um mandrião — dizia o senhor Crina Lisa —, é o que eu digo, aposto minhas quatro ferraduras que ele passa a noite em claro enchendo a cara de leite, por isso passa os dias em sono profundo.

— Não seja tolo senhor Crina Lisa, todos, Oinc!, sabemos que o senhor Bigode Fofinho deixou o leite desde que a senhorita Pata Charmosa se espatifou após tomar três litros sozinha, Oinc!, e confundiu o moedor de peixe com uma lagoa — disse o senhor Rabinho Enrolado em tom sério.

Um longo minuto melancólico se fez no curral.

— Talvez ele só seja tímido — propôs Novelo Cinzento quebrando o silêncio.

— Bigode Fofinho tímido? — riu Orelhas Felpudas. — Me lembro quando certa vez ele convenceu a senhorita Pluma Mansa e sua irmã Bico Doce a afagar suas orelhas. Aquele sem vergonha não é tímido nem aqui e nem no Monte do Cascalho.

— Talvez então ele só esteja velho, todos sabemos como a idade pode corroer a vontade de um bicho.

— Quase todos aqui nascemos na primavera do Ano do Milho, e eu me lembro bem dele quando nasci; ele ainda era jovem e viril, como poderia então estar tão velho? — indagou a senhora Crina Desgrenhada.

A balbúrdia recomeçou, todos levantando suas suposições e teorias conspiratórias a respeito do gato que passava as tardes inerte fitando a Clareira do Soninho. A senhora Mula Aérea insistia que ele vigiava o bairro como um justiceiro, de prontidão a salvar alguém de algum assalto, mas ninguém deu ouvidos, pois ali todos eram civilizados e não cometiam nenhum crime — mesmo que uma certa vez o senhor Cauda Malhada tenha furtado “sem querer” um peixe na janela da senhorita Gansa Rosada. O senhor Penas Bovinas foi ainda mais longe, sugerindo que aquele gato na verdade observava o comportamento de cada um no bairro para que um dia quando ninguém estivesse olhando, ele pudesse sorrateiramente se enfiar em suas casas e roubar todos seus peixes, ovos e feno.

— O senhor Bigode Fofinho é bem capaz disso mesmo — ressaltou Orelhas Felpudas em tom de alarde —, lembro certa vez, que a Grande Bola Amarela no céu me queime se eu estiver mentindo, que ele foi à minha casa, veja bem, à minha casa, e roubou-me uma cenoura.

Na verdade Orelhas Felpudas não tinha certeza se ele havia mesmo roubado tal cenoura, mas dera por falta de uma no cesto. Sempre guardava sete cenouras no cesto, uma para cada dia da semana, e naquela ocasião ainda era quinta e só restava três cenouras; não era conveniente também dizer, por isso omitiu que era ruim em cálculos simples. Mas aquilo que disse foi o suficiente para colocar todos apavorados e inseguros. — Ele vai nos roubar, ele vai nos roubar tudo. — Diziam.

Foi então que o time da Ordem das Asas se prontificou a prender o infrator.

— Senhoras e senhores irmãos de asas — disse o delegado Porcão. — Não façam alarde, o tempo de medo já passou, nossos antepassados que viviam temerosos de terem suas peles arrancadas e suas carnes moídas, nós hoje não somos como eles, temos asas — completou erguendo sua asa alva e comprida.— Esse é o símbolo da nossa paz e liberdade, e se há alguém que queira nos tirar isso, nós o depenaremos.

Algumas senhoras se assustaram, mas logo o delegado se desculpou por sua expressão. Em poucos minutos um grupo de seis Sentinelas da Ordem estavam no céu voando em direção ao apartamento do senhor Bigode Fofinho.

Era fim da tarde, e ele ainda se encontrava reclinado sobre o parapeito. Seu pelo negro misturava-se ao lusco-fusco do anoitecer e suas asas brancas eram tudo que se via.

— Parado aí — disse um dos Sentinelas. — Senhor Bigode Fofinho, você está preso por roubo.

Mas o gato não não se moveu, como qualquer gato orgulhoso reagiria à voz de prisão.
— Vou repetir, senhor Bigode Fofinho: desça e coloque suas asas para o alto.

Novamente nada.

Então Orelhas Felpudas — que era um dos Sentinelas — se aproximou meio saltitando, meio planando. Com um esgar de desdém, disse:

— Seu plano já era gato maldoso, não é dessa vez que você vai roubar a todos nós.
Nisso ele o tocou com uma pata, mas o senhor Bigode se manteve impassível.

Tocou-o de novo, e nada.

Pediu ajuda a um dos cães para movê-lo, mas o senhor Bigode não deu a mínima.

Todas suas sete vidas haviam chegado ao fim, e com um sorriso fitava a sociedade que ajudara a construir.

Joaquina

Fabiana Correa


         
Encontrei Joaquina já acordada,encolhida sob o manto ressecado. De seu corpo desgastado, restava-lhe a pele sulcada e ossos em pronunciados nós. Quando cheguei com seu café da manhã, me disse o bom dia costumeiro, sem fixar o olhar. Sorveu lentamente o café com leite e pedaços mergulhados de biscoito. Permaneci calada ao seu lado. Era esse o nosso ritual:o café silencioso. Somente quando me entregava a xícara vazia, nosso diálogo começava.

- Tive uma noite de sonhos cheios de memórias dos anos que não conto mais.
- Mas isso é bom, Joaquina. Você não teve uma vida feliz? Não viveu por suas escolhas, como costuma nos contar?

- Mas vivi por muitas vidas. Não precisava tanto.

Deixei Joaquina com suas memórias e fui lhe preparar o banho. Quando voltei, chamei por ela mas não me respondeu. Quase sempre era assim. Continuei nossa rotina, conversando sobre o tempo, o sabonete novo e a toalha macia. Debaixo da água morna, seu olhar passeava por algum lugar não visto, mas que a fazia sorrir. Terminado o banho, fomos para o jardim. Joaquina adorava o tempo de sol porque, segundo ela, ele lhe aquecia os ossos e consumia o azedume alma. Caminhamos lentamente, braços dados, até o seu banco preferido. Depois de se acomodar, Joaquina pôs-se a falar, guardado os olhos bem fechados.

- Meus sonhos hoje não foram desbotados e trouxeram um tempo feito de cores muito vivas. Euusava vestido de renda e flores, com laço de fita nas tranças e sapato de verniz. Minha casa tinha perfume de canela e a janela ficava sempre aberta ao sol.  Por ela, vi o desfile do circo,a retreta da banda, procissão do Santíssimo e até o retorno dos três pracinhas manchados de guerra. Vi cortejos de casamento e também de encerramento. Acenei para muitos, recebi sorrisos e desejei boas novas. Aos que partiam da cidade, entregava sempre um pacotinho com biscoitos de nata bem fresquinhos para distrair na viagem. Aos que chegavam, esperava com o chá ou café, o que a saudade pedisse. Eu dei adeus à Maria Fumaça e ganhei uma lanterna de lembrança do maquinista que um dia quisera ser meu noivo. Tive muitos pretendentes. Para todos tive um sorriso, uma palavra amiga, às vezes até um docinho de frutas, mas nunca dei meu coração. Eu sonhava com as estrelas, ajudava os bebês a nascerem, preparava as grinaldas para os casamentos, arrumava o andor da santa e o presépio no Natal. Minha vida era cheia de afazeres, e a minha janela era do tamanho do mundo.Mas um dia eu não abri a janela. Não fiz o café. Acordei com desmemória, cansada dos fazeres e lembranças. Uma vida de muitos anos traz muitos cansaços, menina.

Joaquina se calou depois de vazar suas memórias e entregou o corpo à sua respiração cansada. Acompanhei seu silêncio, e aproveitei o sol imaginando a vida que Joaquina tivera. Não percebi o tempo passar até que o sinal do almoço me despertou.
- Hora do almoço. Vamos, Joaquina?

Joaquina me olhou com olhos vagos. Procurou algo ao redor e fez uma careta.
- Quem é Joaquina?

- Joaquina é minha amiga - disse eu, sorrindo – e vamos logo, antes que a comida esfrie.

Fizemos, em silêncio, o caminho de volta em passos lentos e lembranças desbotadas.

Crescer



Patricia Haddad

- Quantos dias?
- Ai... não sei.
- Acho que uns quinze dias, mais ou menos.
- Isso tudo?
- É o que dizem.
- Mas é muito tempo!
- Vai passar rápido, você vai ver. Quando menos esperar já vai ter terminado.
- Não sabia que seria tanto tempo.
- Pois é.
- Nossa, estou com muito medo!
- Medo por quê?
- Ora, eu nunca fiz isso antes.
- Relaxa, vai dar tudo certo.
- Será? Como você pode ter tanta certeza?
- Eu não tenho, mas o Bernardo já passou por isso e disse que não doeu.
- E ninguém tentou matar ele?
- Bem, isso já é meio difícil de saber, mas se ele está vivo...
- Ainda estou muito assustada.
- Faz parte.
- Tanta confusão por apenas mais dois meses de vida. Não seria melhor se pudéssemos deixar como está?
- Tá maluca? E perder a oportunidade de viver plenamente?
- Sei lá... estou com medo de não conseguir fazer direito.
- Lógico que vai conseguir, não seja tão insegura!
- Sei lá...
- Feche os olhos e deixa seus instintos comandarem você.
- Você fez isso?
- Fiz.
- Ficou muito bonito.
- Obrigado.
- ....
- Bem, agora vou fechar minha pupa, até mais. A gente se vê daqui a quinze dias, mais ou menos.
- OK.
- Você vai ficar bem?
- Vou sim, pode se transformar a vontade.
- Beleza. Vai dar certo, Melissa, quando tudo isso acabar estaremos voando de flor em flor rindo desse seu medo bobo. Vou te zoar até você não aguentar mais!
- Vai logo!
- Beleza... . Até mais então.
- Até, Helcio.
- ...

- Ai, que medo. Queria ser lagarta para sempre.