Transformação

Victor Araújo



Quando certa manhã Vitinho acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em uma bela borboleta azul. Seu dorso prolongado pelas asas repousava sobre o sexo de sua namorada, feito um adorno. Era como se do púbis brotasse o inseto, que insistia em se deixar ficar sobre o tufo de pelos, e com espasmos curtos, quase imperceptíveis, hesitava em mover-se. Hesitava entre o voo e o sexo.

A namorada olhava o bicho encantada com o azul daquelas pétalas laterais que conferiam ao inseto uma aparência de sonho. Não se movia, por sua vez, temendo que o encanto se quebrasse, embora a vergonha de se ver exposta a impelisse ao contrário. Foi vencida pelo encantamento. O ser etéreo começou a balouçar sobre ela, um halo de fumo se espalhava pelo quarto, tudo envolto em névoa. Não se divisava mais o que era ente e o que era sexo. Pelos e pétalas eriçadas.

 Os dois se abraçavam num abraço tal, que quase decolavam pelo exíguo espaço da cama. Lá fora se ouviam barulho de gente. Mas isso não os intimidou. Agora a libélula a forçava a levantar as nádegas, evitando seu pretenso voo, num jogo que só as fêmeas são capazes.

Então, algo disparou dentro dele. Agia como tal, como sexo oposto:- “- mas, pensando bem-, melhor não se importar”. Não ligou, agora era uma borboleta. Uma assexuada.“Sou uma lepidóptera”-, pensou. “Tenho asas escamosas”.E começou a espalhar o pó, que cobria suas asas, sobre lábios da, agora, imensa vulva. A namorada movia-se em movimentos espasmódicos, num crescendo, como a coda de um granfinale. Num misto de prazer e violência, um desejo de fazer o bicho gozar até morrer.


Então ela passou a mexer devagarinho, movendo as ancas de um lado para o outro, abrindo e fechando as pernas, num amplexo que alargava a flor da grande vulva. Tiritando, descontrolada, febril. Enquanto o dorso do animal deslizava lentamente para dentro. Quando, zás,num trançar de coxas, ela o empurrou todo para si, que escapoliu para o fundo, e com o suor escorrendo lhe pela face,-  apertou as pernas no clímax e até mata-lo.

O aniversário

Deizimar Mendonça Oliveira


__ Meu amor, parabéns! Que você cresça lindo e cada vez mais ajuizado!
__ Obrigado, tia!
__ Vamos, abra! Gostou?
__ Aham!
__ Quer que eu te mostre como funciona?
__ Eu sei como funciona, tia, obrigado! – Ainda sorrindo, correu até a janela, olhando para baixo e repetindo o gesto a cada volta que dava na pequena sala do apartamento.
__ Sente-se aqui comigo. Conte-me como vão as coisas.
__ Bem.
__ E na escola?
__ Tudo bem.
__ Aceita um refrigerante? – intervém a mãe, sorriso largo no rosto.
__ Será que cheguei cedo? – perguntou à mãe, franzindo a testa.
__ É claro que não, os outros é que estão atrasados, você chegou até meio tarde. Olha aí, a campainha está tocando.
__ Tio! – gritou o menino, abraçando suas pernas e enroscando-se com ele.
__ Que bolo lindo! – ensaiou dizer a tia, com um sorriso pálido. – Que alegria ver o seu tio, não é? Vocês se veem sempre? – perguntou, agora virando-se para o menino, enquanto via o homem se afastar rumo a cozinha, aos risos com a mulher – o que foi? Eu disse algo errado? Por que está chorando, meu menino?
__ Eu não estou chorando!
__ Vamos, venha, sente-se aqui com a tia. O que foi, meu amor, pode confiar em mim.
__ Ele disse a verdade – e choramingando – ele disse que ninguém viria!
__ O quê? Do que está falando, meu amor?
__ O Leandro, ele disse que falaria para os meus amigos não virem.
__ Mas quem é Leandro, por que ele faria isso?
__ Ele disse que sou esquisito, que tenho cara de cegonha e que avisaria os meninos para não falarem mais comigo.
__ Mas isso é um absurdo! Sua mãe sabe disso?
__ Ela não pode saber – disse com uma voz quase inaudível – ela ficaria muito triste. Por favor – suplicou, juntando as mãozinhas – prometeu que não contaria para ela.  Mamãe! - gritou o menino, enxugando os olhos com os dedos miúdos – Você tem certeza de que convidou todo mundo?
__ O que, meu filho? – disse a mãe, irrompendo na sala, já com os olhos marejados – Você me jurou que faria isso, sabe que a mamãe é ocupada! Eu... Eu deveria ter faltado ao trabalho...
__ Ah, mãezinha, foi até melhor, assim podemos comer o bolo só nós.
__ Não seja mal-educado, João Victor! Compartilhar é que faz a gente feliz!
__ Desculpe, mamãe.


O julgamento do Lobo Mau



Emerson Albuquerque

― Lá em casa mora um lobo mau.Muitos podem dizer que eu sou louco, pois sou um carneiro e ele pode me devorar. Mas não, meus amigos. Ao contrário do que dizem por aí, o Senhor Lobo não é um devorador de porquinhos. E levá-lo para morar comigo e minha família é a maior prova da minha confiança.

O Júri formado por animais de diversas espécies olha incrédulo. Como pode o Dr. Carneiro defender alguém como o Lobo? O ovino continua:

― Ouçam, meus amigos. Dir-lhes-ei algo que irá surpreendê-los: O senhor Lobo é na verdade vegetariano.

Ouvem-se gritos de espanto. A família de Porcos mostra indignação na plateia. O Dr. Carneiro prossegue.

― Para provar o que estou dizendo, quero chamar aqui a Senhora Vaca para testemunhar.
A Senhora Vaca entra desajeitada. O Dr. Carneiro inicia as perguntas:

― Senhora Vaca, sabemos que o Senhor Lobo costuma frequentar seu restaurante. O que ele costuma pedir? Que exigências ele costuma fazer?

― Ele só come salada. E sempre pede para não colocar molho de tomate pois lembra sangue o isso o deixa enjoado.

― Agradeço, Sra. Vaca ― disse o Dr. Carneiro. Em seguida, virou-se para o Júri. ― Vejam, nobres jurados, o Senhor Lobo, além de ser vegetariano, se sente enjoado ao ver o vermelho do molho de tomate. Como pode essa sensível criatura ter tentado devorar três porquinhos lindos?

O Juiz da Seção, o Leão, ficou intrigado e resolveu fazer uma pergunta:

― Dr. Carneiro, se o seu cliente não tinha intenção de devorar os porquinhos, o que fazia ele batendo de porta em porta e destruindo as casas dos pequenos suínos?

― Meritíssimo, não podemos negar que o Sr. Lobo esteve na porta dos porquinhos e até que destruiu a casa de dois deles. Todavia, não houve dolo nessa ação. O meu cliente em nenhum momento quis prejudicar as três pequenas criaturas. O que acontece é que o Sr. Lobo é muito fervoroso em sua fé.

― E virando-se para o júri, prosseguiu ― O Lobo, meus nobres jurados, é Testemunha de Jeová. E na única e exclusiva intenção de levar a palavra de Deus aos porquinhos, acabou por exagerar na missão que lhe foi concedida e acidentalmente destruiu as frágeis casinhas de palha e madeira. Dessa forma, o Sr. Lobo poderia talvez ser acusado na esfera cível por danos materiais. Mas nunca pelo crime de tentar devorar os porcos. E digo mais: Talvez tenha sido o próprio Criador que, escrevendo certo por linhas tortas, fez com que o Sr. Lobo destruísse as frágeis casinhas e assim, tenha alertado aos porquinhos que deviam se proteger melhor. Agora estão os três morando seguros na casa de tijolos graças ao Sr. Lobo.

Ao fim do julgamento, o Júri absolveu o Lobo por unanimidade. E na saída do tribunal, este foi agradecer ao seu advogado e à Sr. Vaca, a testemunha de defesa:

― Obrigado, Dona Vaca e Dr. Carneiro. Graças a vocês estou livre.

― Só fizemos o que você nos obrigou a fazer, Lobo mau ― disse o Dr. Carneiro ― Agora espero que cumpra sua parte do acordo e liberte a Sra. Ovelha e o Bezerro.