E se eu não sair daqui?

Sheila Simões



Minha mãe vive dizendo que não aguenta mais: “quando vai chegar a hora desse menino nascer?” Bem, não tenho a menor ideia do que ela quer dizer com isso, confesso. Por mim, está ótimo, não preciso ir a lugar nenhum. Durmo e acordo quando quiser, soluço pra passar o tempo, dou uma espreguiçada e chupo meu dedão. Como posso querer outra vida? Sair dessa bolha de água quentinha, nem pensar!

Apesar de ultimamente ter ficado meio apertado por aqui, acho que ela andou comendo demais. Olha só, rapaz, não posso nem esticar as canelas e, logo chuto essa parede.

Outro dia, levei o maior susto, parecia um terremoto, ela sacolejava sem parar e um som muito alto invadiu meus ouvidos. Acho que começou uma aula de dança e esqueceu que eu ainda estava aqui.

Minha sorte foi logo ela precisar fazer xixi, então aproveitei para avisar que não estava dando para aguentar. Dei um chutão para avisar que tem gente em casa! Se vai continuar pulando, vou precisar fazer um cinto de segurança com este cordão da minha barriga. Brincadeira, minha mãe é legal.

Algumas vezes, parece que ela fica triste e chora bastante. Ela soluça como eu, quando diz, alisando a barriga, que falta dinheiro para comprar minhas fraldas, meu berço, minhas roupas. Que vai telefonar para aquele cafajeste - a voz dela aumenta o tom nessa hora e ela fica brava – e avisar que ele vai ser pai.

Pai? Já ouvi alguém perguntar: “quem é o pai?” Ela responde que é produção independente – “este menino só vai ter mãe”. Por mim tudo bem, posso ficar aqui dentro numa boa, a gente vai levando a vida, juntinhos. Prometo que chuto mais devagar quando ela ficar velhinha.

Uma vez por mês ela vai ao mesmo lugar falar com alguém com um nome engraçado – o doutor. Eles conversam sobre mim e sobre um tal de parto. O doutor falou para ela que tem tudo para ser natural e, quando for a hora, deverá vir com alguém para o hospital. Que hora será essa? Não me importo, meu lugar está reservado, a qualquer hora vou estar sempre aqui.

Hoje à noite minha mãe falou ao telefone com alguém que ela conhecia bem, reclamou irônica: “tá sumido hein?” Ela chorou de novo e disse para a pessoa vir saber qual era a novidade. Desligou logo o telefone. Penteou os cabelos, alisou a barriga e suspirou. De repente, alguém veio falar com minha mãe. Ela falou: “entra”.

Foi estranho, porque outra mão começou a alisar a barriga dela e uma voz grossa falava com a boca grudada na pele: “oi meu filho, sou seu pai”.

Será que era o “aquele cafajeste” ameaçando a mamãe? Opa, espera aí! Não se meta com a gente, eu chuto bem forte. Foi só fazer isso e ele tremeu de medo, porque começou um corre, corre, ela andava meio esquisita, com as pernas abertas, segurando a barriga e dizendo: “vai nascer, vai nascer!”

Preso por crime de prosa

Felipe Basso

Simplesmente não vejo razão
Desta tal de poesia existir
Parece coisa de gente indecisa
Que não sabe se fala ou se canta
E por fazer nem uma cousa nem outra
De azar inventou o poema

Me nego a rimar um só verso!
Não sou homem de falar enfeitado
O negócio é ser reto e direto
Afinal, linguagem não precisa figura
E não é que de só reclamar
Eu também acabei de rimar?

A pior das rimas é aquela encadeada
Dá uma trancada na prosa do povo
Causa até calombo no canto da bocada
Diz a gente mais letrada que é a tal da aliteração
Anacoluto, não sei se não é palavrão
Anáfora é uma confusão. É isso. É aquilo. É cheio de pontuação
Óh ceus! Livrai-me da apóstrofe
Que de catástrofe já me chega a inversão
           
Metáfora, hipérbole, prosopopeia e até sinestesia
Servem só de guia pra dizer nada com nada
E é aqui que a chave do problema se esmiuça
Pois nem que a vaca tussa feito um homem acamado
Eu serei chamado de poeta ou usarei qualquer figura
Essa linguagem um tanto dura que prende o meu palavreado
Preso por um crime já julgado, com sentença apalavrada

Que afeta todo mundo, mas somente eu saio culpado

Vida Dura

Catia Schmaedecke


Os Retirantes _ Cândido Portinari – 1944 - Óleo s/ Tela. 190 x 180 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

De certeza que é de fome
O pranto forte dessa gente

Meia volta ou volta e meia
Ficam todos descontentes

Tanto faz se é puro o pão
Ou recheado de melado

Sobe e desce a ladeira
O pai sempre desempregado

A mãezinha coitadinha
Lava a roupa do patrão

Vira a noite cozinhando
Refogado de feijão

Vai à feira, faz a xepa
Sente orgulho da labuta

À família presta contas
Nunca foi prostituta

Em terreno de miséria
Honestidade é medalha

Reza forte e chama o santo
Não precisa de migalha

Filho Ben acorda cedo
Vê o dia amanhecer

O chinelo é de dedo
A escola é seu lazer

Quando alguém lhe oferece
Boa quantia em dinheiro

Na favela anoitece
E ele vira cangaceiro

Exibe relógio novo
Sorriso com dente de ouro

Olhar duro para o povo
Cabelo pintado de louro

Em país de terceiro mundo
Carro de luxo é ostentação

Cruzeiro pelo Atlântico
Não tem explicação

Certa noite de lua cheia
A polícia bate forte

Ben rola morro abaixo
Provocando a sua morte

O pai na calçada chora
A revolta corrói seu peito

Lembra-se de que outrora
Tudo era tão perfeito

O casal em comunhão
Reúne a pouca mobília

Retornam para o sertão
E formam nova família