Festa surpresa



Júlio Perez


- Fim do mês tem o aniversário da mãe.
-Opa! Legal! 
- Vamos fazer uma festa surpresa pra ela, afinal oitenta anos não é pra qualquer um. 
- Beleza! Vai ser onde?
- Em Porto, na casa da minha irmã. 
- Você vai?
- Claro! Que pergunta? Aliás, nós vamos, né?!
- Quem vai estar lá?
- Todo mundo. Meus irmãos, os sobrinhos, os genros, as noras, os netos... Menos, claro, a bruaca da minha cunhada.
- Não fala assim dela!
- Por que não?
- Porque não! Não acho legal você ficar alimentando ódio dela, afinal ela é mulher do teu irmão. 
- Sim, mas convenhamos: não perdoar a velha depois de todos esses anos? Se ela gostasse mesmo do meu irmão, ela a teria perdoado. Afinal, o que aconteceu não foi nada tão grave assim pra ela ficar alimentando esse ódio todo. 
- Eu sei, mas vai fazer o quê? Ela deve ter as razões dela. 
- Opa! Tá defendendo a bruaca?
- Não, só não quero ser injusta com as pessoas. 
- Injusta? Como assim? Você acha que estou sendo injusto com ela? Por causa de uma bobagem daquelas? A velha só perguntou se ela estava cuidando bem do marido, daquela vez que ele adoeceu e ninguém sabia direito o que era.  E por causa disso, ela criar toda essa celeuma?  Será que ela não é capaz de entender que isso é coisa de mãe, se preocupar com o filho?
- Eu sei... mas se ele não se importa, porque a gente vai tomar as dores. 
-  Meu irmão também, às vezes, é um banana. Aceitar tudo o que ela faz. 
- Decerto ele gosta dela, se não, não estariam ainda juntos.
- Gosta! Tolera!  Também, vai fazer o quê? Se separar nessa idade e de novo? Deixar tudo pra trás, não é fácil. Agora  ela também podia facilitar um pouco as coisas.  Podia passar uma borracha no que aconteceu. Família é tudo igual. As pessoas se desentendem, mas têm que achar uma forma de conviver, tu não acha?
- Claro!
- Então, tá combinado, né? Posso confirmar nossos nomes?
- ...
- Que foi?
- Desculpe, meu amor, mas eu não vou. 

Nova consciência



Paulo Omar

Artigo escrito por Adhira Madhumalati - especialista em tecnologia do jornal OMNIA.

Depois que o homem começou a colonizar outros planetas, muita coisa mudou aqui na Terra, como todos sabemos.

Os avanços científicos trazidos pela corrida espacial e pelas inúmeras descobertas em todos os  campos científicos, possibilitadas por viagens a outros mundos, alteraram substancialmente diversos aspectos de nossa vida cotidiana. Mas até que ponto podemos avançar em nossos experimentos tecnológicos sem que estes se tornem uma ameaça a nós mesmos?

Provavelmente em alguns meses, estejamos prestes a assistir a uma das maiores revoluções tecnológicas de nossa história, revolução essa que pode trazer um grande debate sobre os limites éticos na explosão do avanço tecnológico e científico que experimentamos nos últimos tempos.

Acredito que todos tenham ouvido falar do estranho material enviado do planeta Malala, recebido pela Universidade Internacional das Nações Unidas (UINU) há cerca de duas décadas, o famoso aço parafásico. Esse material (composto principalmente por Torstênio, elemento semelhante ao Tório, mas estranhamente não radioativo) foi apelidado com esse nome por Thorsten Bernhard e sua equipe, por ter a estranha característica de apresentar campos magnéticos variáveis (num padrão, ao que parece, totalmente aleatório) e ter campos distintos, em termos de sincronia, dentro e fora do material. Pois bem, esse estranho material promete possibilitar a criação daquilo que podemos chamar de
“consciência eletrônica”.

Uma equipe dos mais renomados cientistas da UINU, chefiados por Karl Kasper (Engenharia Robótica), Reyansh Talan (Neurociência) e Andrzej Petroski (Inteligência Artificial), apresentou ontem o primeiro protótipo do seu mais novo sistema. Eles têm trabalhado há quatro anos neste novo cérebro eletrônico que usa as propriedades do aço parafásico para implementar o mais recente modelo computacional desenvolvido no Instituto de Matemática da UINU, a Máquina Andries-Adria, que promete superar o potencial computacional do modelo Máquina de Turing, usado até hoje. Esse novo modelo apresenta como possível a simulação da consciência humana.

“Uma consciência desenvolvida é capaz de enxergar qualquer sistema formado de partes como um sistema único, isso é o que permite ao ser humano tomar decisões não previamente planejadas”, afirma o neurocientista Reyansh Talan. - “Nos últimos cinquenta anos, perdemos cerca de 1300 espaço-batedores, por motivos que não sabemos, pois não temos como recuperá-los. Ao implementarmos o modelo de Andries-Adria em nossos batedores, certamente o número de perdas será reduzido drasticamente, e nos possibilitará alcançar fronteiras ainda mais distantes.”

É claro que isto traz a inevitável pergunta, dar consciência a máquinas não é algo extremamente arriscado? Quais seriam as consequências disso?

Para o neurocientista, “podemos ficar tranquilos quanto a isso”. Em primeiro lugar os batedores terão acesso restrito às informações, a ideia é alimentarmos sua memória apenas até o ponto em que eles
dominem especificamente suas atividades, e nada além disso. Não será dada a ele nem mesmo a informação de que existem seres humanos, se isso não for severamente necessário a suas atividades. Em segundo lugar, no instante em que esses batedores cumprirem suas tarefas, serão prontamente desativados, e suas memórias apagadas.”

Apesar das palavras de tranquilidade do doutor Talan e de seus colegas, grupos contrários a este tipo de pesquisa têm demonstrado temor frente a esse projeto.

Alissa Campbell, presidente da ONG HumanWatch, afirma: “Nenhum dos responsáveis pode realmente garantir que essa tecnologia não fugirá ao controle, podemos estar diante da maior ameaça que a humanidade já sofreu, é imperativo que os governos de todos os países se posicionem
contrários a essas pesquisas”.

Apesar dos protestos, diversas companhias têm defendido a descoberta, e se demonstram bastante animadas com a implementação em suas naves. A chinesa TaiKong, uma das principais patrocinadoras privadas do projeto, afirmou que pretende lançar ao espaço seu primeiro batedor
“consciente” até o fim deste ano.

Quanto ao uso dessa nova máquina em ambientes habitados por humanos, os responsáveis pela pesquisa, tanto os cientistas, quanto seus patrocinadores, são unânimes em afirmar que esta tecnologia será usada apenas em viagens espaciais não tripuladas. Mas após longa conversa
com o doutor Kasper, ele confirmou acreditar que no longo prazo, ao se esgotarem “todos os testes possíveis de segurança”, que esta tecnologia “talvez possa, sim, ser usada em nosso ambiente”.

Frente à aparente inevitabilidade do avanço dessas pesquisas, só nos resta exigir de nossos governantes e dos conglomerados que os suportam, responsabilidade com o uso dessa nova descoberta. E caso um dia as máquinas venham a viver e a pensar entre nós, só nos resta
torcer para que estas tenham uma consciência mais avançada que a da maioria de nós, seres humanos.

Primavera



Rafaela Bressan

Dentro do meu carro, passando pelas grandiosas árvores da avenida que dá para minha casa, vislumbro as sombras indo e vindo em minhas mãos, aquecendo os dedos presos ao volante. Contemplo os vira-latas bocejando nas ruelas esquecidas pelo sol. Sei que aquela tarde de primavera ficará cravada em minha memória com seu céu de luzes e sombras.
Junto com esta paz, me veio um tremor na espinha, um arrepio tomou conta de todos os meus nervos e abalou toda a minha estrutura. Foi numa dessas tardes que nossos vazios se encontraram, num olhar mágico e passageiro, nos unindo pela eternidade. Num impulso, destes que surgem do ventre e ecoam pela alma, paro em frente à sua casa.
  
Você está sozinha, à deriva em seu mar de angústia, pronta para marcar em seu corpo mais uma tempestade. Tento puxar-lhe para fora de seus espinhos, mas as lágrimas já não são suficientes para escoar sua aflição. Você só deseja minha compreensão, que eu entenda que apesar do corte ser profundo, ele é inofensivo, e lhe traz a paz que eu havia experimentado segundos atrás.
  
Relutantemente concordo em vê-la se flagelando. Num movimento rápido e suave, ela traça uma linha precisa entre o meio e a beirada de seu antebraço. Vejo seu rosto ficar leve, ela encosta-se à cama e fecha os olhos, esboçando um tímido sorriso nos lábios. E por alguns gloriosos instantes uma brisa primaveril marca seu semblante.

O sangue, escuro e quente, começa a verter num fluxo lento, pintando seu braço. Sento ao seu lado, pego uma caneta na minha bolsa, seguro o braço ensanguentado e desenho sobre o corte um barco. Ela sorri gentilmente e tomando a caneta da minha mão, desenha em meu pulso uma âncora.


Tudo que fizemos foi relembrar nosso primeiro passeio, quando tomamos sorvete de maracujá sentadas numa muretinha, perto da casa dela. Mureta hoje coberta por uma vasta coroa de cristo, inviabilizando crianças sonhadoras de apreciar à tarde com seu doce favorito. Lembramos caladas daquele tempo, unidas pelo silêncio. Não voltaremos a ser as crianças tímidas de outrora, e jamais recuperaremos a inocência de anos atrás. Forjamos nossa amizade a ferro e fogo, numa cumplicidade,maior do que qualquer medo ou julgamento. E mesmo quando  tempestades  se formam  em dias belos, nós temos um lugar para nos proteger. E se não fosse por aquela caneta, desenhando, sem repugnância, todo o amor, toda a empatia que um ser humano é capaz de demonstrar a outro, se não fosse a lembrança vívida do momento que nosso olhares se cruzaram e a irmandade  cósmica que nos uniu, se não fosse por aquela amizade, eu teria perdido para a dor a irmã que nunca tive. Depois daquela tarde ela jamais precisou do êxtase que os cortes profundos no braço lhe causavam, ela entendeu enfim que existia alguém que a compreendia, e isso já lhe bastava.