Crescer



Patricia Haddad

- Quantos dias?
- Ai... não sei.
- Acho que uns quinze dias, mais ou menos.
- Isso tudo?
- É o que dizem.
- Mas é muito tempo!
- Vai passar rápido, você vai ver. Quando menos esperar já vai ter terminado.
- Não sabia que seria tanto tempo.
- Pois é.
- Nossa, estou com muito medo!
- Medo por quê?
- Ora, eu nunca fiz isso antes.
- Relaxa, vai dar tudo certo.
- Será? Como você pode ter tanta certeza?
- Eu não tenho, mas o Bernardo já passou por isso e disse que não doeu.
- E ninguém tentou matar ele?
- Bem, isso já é meio difícil de saber, mas se ele está vivo...
- Ainda estou muito assustada.
- Faz parte.
- Tanta confusão por apenas mais dois meses de vida. Não seria melhor se pudéssemos deixar como está?
- Tá maluca? E perder a oportunidade de viver plenamente?
- Sei lá... estou com medo de não conseguir fazer direito.
- Lógico que vai conseguir, não seja tão insegura!
- Sei lá...
- Feche os olhos e deixa seus instintos comandarem você.
- Você fez isso?
- Fiz.
- Ficou muito bonito.
- Obrigado.
- ....
- Bem, agora vou fechar minha pupa, até mais. A gente se vê daqui a quinze dias, mais ou menos.
- OK.
- Você vai ficar bem?
- Vou sim, pode se transformar a vontade.
- Beleza. Vai dar certo, Melissa, quando tudo isso acabar estaremos voando de flor em flor rindo desse seu medo bobo. Vou te zoar até você não aguentar mais!
- Vai logo!
- Beleza... . Até mais então.
- Até, Helcio.
- ...

- Ai, que medo. Queria ser lagarta para sempre.

O Dilema

Alba Catharina Morel

-Que bom que finalmente atendeste!
-O que aconteceu, amiga? Tua voz está diferente.
-Pois é. Estou sempre inventando coisas e desta vez, acho que entrei numa fria, minha amiga! Imagina que me inscrevi numa oficina de escrita criativa online. Já recorri a esse meio por sentir que na minha idade seria difícil participar de uma presencial.
-E daí? Qual o drama? Escreves bem e gostas de fazê-lo, logo o certo é aprender as técnicas para isso. Não estou entendendo.
-Vou explicar, contando com teu conselho quando perceberes em que esta velhinha gaiteira se meteu.
Neste momento Catarina respira fundo, endireita a postura e solta o verbo:
-Logo de início fiquei maravilhada com a nova experiência e naveguei feliz pelas águas da interpretação de obras de arte, os caminhos claros apontados pelo professor para entender o caprichoso bordado da criação literária. Tudo lindo, tudo ótimo. Mas logo, logo, minha amiga, me deparo com tópicos que me fazem tremer: - Não se deve ser prolixo, mas conciso dizendo muito com poucas palavras. – É sinal de incapacidade usar muitos adjetivos parecendo querer enfeitar o texto para esconder sua pobreza. Hemingway, então, atacou de frente meu estilo, sem sequer um sinal de compaixão. Depois dele: “O bom diálogo se tornou afiado e enxuto”.
-Parece que entendi: estás sentindo tua maneira de escrever meio diferente dos padrões atuais...
-Isso! Aí fico em dúvida sobre o que fazer, entendes? Será que consigo me adaptar aos novos padrões de excelência, eu que durante grande parte da vida li MDely e Coleção das Moças?!
-Catarina, eu também me emocionei com essa literatura, mas, como tu, atualmente sou admiradora de Stephen King e seus personagens e enredos assustadores, não é mesmo?
-É...
-Pois então! Não é o desafio que aprecias?
-Será?... Tenho uma ideia, amiga: Vamos desligar os telefones e nos encontrarmos ali na cafeteria da esquina da tua casa, o que achas?
-Isso mesmo, estou indo; será mais agradável debatermos o teu futuro literário saboreando um cappuccino.
***
-Catarina, vamos rever o quadro: O que sentes quando lês esses contos que, eu acho, parecem telegramas?
-Sabia que ias me entender – Fico frustrada... na boca da personagem que se deslumbra com um pôr do sol tenho vontade de por mil adjetivos sobre o rosado das nuvens, a lentidão com que o astro-rei mergulha no horizonte para uma noite de sono tranquila. Viste, amiga? Sabes como me sinto? –Orgulhosa da minha imaginação mas um tanto incomodada com a estrutura jurássica que dou aos textos, comparando aos dos outros!
-Catarina, com perdão do ditado: em Roma sejamos romanos...-Por outro lado, que mal existe em que sigas escrevendo o que tua cabecinha manda, o que teus sentimentos ditam, o que tua bagagem te oferece?
-Amiga, não me ajudaste muito, mas creio que não há mesmo o que fazer. Vou procurar um meio termo e novamente pedindo desculpas – É preciso dançar conforme a música, porém com os passos que nosso corpo ditar.
-Isso, Catarina! Ao fim de tudo o que desejas é “participar do baile, pois não? Vai em frente, sem medo e boa sorte.

                                                                

Festa surpresa



Júlio Perez


- Fim do mês tem o aniversário da mãe.
-Opa! Legal! 
- Vamos fazer uma festa surpresa pra ela, afinal oitenta anos não é pra qualquer um. 
- Beleza! Vai ser onde?
- Em Porto, na casa da minha irmã. 
- Você vai?
- Claro! Que pergunta? Aliás, nós vamos, né?!
- Quem vai estar lá?
- Todo mundo. Meus irmãos, os sobrinhos, os genros, as noras, os netos... Menos, claro, a bruaca da minha cunhada.
- Não fala assim dela!
- Por que não?
- Porque não! Não acho legal você ficar alimentando ódio dela, afinal ela é mulher do teu irmão. 
- Sim, mas convenhamos: não perdoar a velha depois de todos esses anos? Se ela gostasse mesmo do meu irmão, ela a teria perdoado. Afinal, o que aconteceu não foi nada tão grave assim pra ela ficar alimentando esse ódio todo. 
- Eu sei, mas vai fazer o quê? Ela deve ter as razões dela. 
- Opa! Tá defendendo a bruaca?
- Não, só não quero ser injusta com as pessoas. 
- Injusta? Como assim? Você acha que estou sendo injusto com ela? Por causa de uma bobagem daquelas? A velha só perguntou se ela estava cuidando bem do marido, daquela vez que ele adoeceu e ninguém sabia direito o que era.  E por causa disso, ela criar toda essa celeuma?  Será que ela não é capaz de entender que isso é coisa de mãe, se preocupar com o filho?
- Eu sei... mas se ele não se importa, porque a gente vai tomar as dores. 
-  Meu irmão também, às vezes, é um banana. Aceitar tudo o que ela faz. 
- Decerto ele gosta dela, se não, não estariam ainda juntos.
- Gosta! Tolera!  Também, vai fazer o quê? Se separar nessa idade e de novo? Deixar tudo pra trás, não é fácil. Agora  ela também podia facilitar um pouco as coisas.  Podia passar uma borracha no que aconteceu. Família é tudo igual. As pessoas se desentendem, mas têm que achar uma forma de conviver, tu não acha?
- Claro!
- Então, tá combinado, né? Posso confirmar nossos nomes?
- ...
- Que foi?
- Desculpe, meu amor, mas eu não vou.