Hashtag carpe diem

Beatriz Ferraz Lopes Ré



Acorda.

A selfie sem maquiagem.
34 curtidas.
A selfie pra mostrar a roupa do dia.
45 Curtidas.
A selfie no metrô lotado.
67 Curtidas.

A foto da mesa de trabalho, lotada de papéis.
A foto do prato do almoço.
A foto da torta de sobremesa.
A selfie com os amigos do trabalho.
A foto do cafezinho.

O machucado no pé depois de batê-lo na mesa.
Foto.
O pôr do sol entre prédios.
Foto.
Os copos de cerveja do happy hour no bar da esquina.
Foto.

O cachorro pedindo carinho.
O livro de cabeceira que lê antes de dormir.

Foto.
Foto.
Foto.
Foto.

Foto.

546 curtidas no total.

Apaga a luz.

Sorri.

O investigado

Arnaldo Antunes



– Bom dia, o senhor mandou me chamar?
– Ah, oi… bom dia, Carlinhos. Entre, entre. Feche a porta, por favor. Há quanto tempo está no partido? Uns dois anos?
– Ainda vai fazer um ano, senhor.
– Pois é, já tá na hora de se envolver mais nas questões importantes, de assumir mais responsabilidades, entende?
– Sim, claro. Concordo plenamente.
– Então, pensando nisso a gente resolveu contar com a sua colaboração. Você gosta de viajar, não gosta? Pois é, quem não gosta? Manter um partido com a nossa importância é muito complicado, sabe?
– É… imagino.
– A gente sempre precisa contar com a ajuda de alguns parceiros que fazem parte do nosso grupo político, mesmo sem ser filiado, entende? Eles também participam do nosso projeto de substituir esse governo incompetente e corrupto que está aí.
– Pode contar comigo, senhor.
– Tenho certeza disso. A gente precisa que você pegue um valor… coisa pouca, sabe? Um certo valor com um pessoal lá de Minas Gerais e traga pra cá. Só isso. Já compramos uma passagem pra você. Seu ônibus sai amanhã pela manhã.
– Tudo bem, mas não seria mais fácil depositar na conta do partido e economizar a viagem?
– É uma coisa de princípio, sabe? Não gosto de dar dinheiro pra banqueiro. Os caras são uns verdadeiros ladrões. E a gente é que leva a fama.
– Ok, mas não era o Oliveira que fazia isso?
– Era, mas ele tá cuidando de outras coisas agora. Assumindo novas responsabilidades. Igual a você. Não fique preocupado com nada. Vou até ligar pra Isabel, pra ver se ela já tá cuidando de tudo.
– Alô? Belzinha, querida?
– Fala, meu presidente… é sobre aquele assunto do Carlinhos?
– É, eu estou com ele aqui no viva-voz. Já adiantou a documentação pra doação daquele fazendeiro?
– Tá tuuudo certo. Nos conformes.
– Obrigado, querida. Tchau, tchau.
– Viu? Não tem com o que se preocupar. Vamos almoçar juntos? Ainda temos alguns detalhes para acertar.
– Desculpe, senhor, mas o Toledo já me convidou e eu fiquei sem jeito de recusar.
– O quê? Tá se bandeando pra facção rival? Brincadeira… O Toledo é parceiro demais. É gente nossa, sabe? Então, a gente se reúne depois do almoço.

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– E aí, como é que foi? Fez o que eu te pedi?
– Você estava certo, Toledo. Eu tinha que gravar mesmo.
– Eu te falei, garoto, conheço esse pessoal. Bom, vamos conversar durante o almoço. Agora sei que você é um cara leal. Tenho um cargo que pode te interessar.

E se eu não tivesse atravessado a rua?

Fernando Salles



Pelas contas que processei mentalmente enquanto ajeitava os óculos de sol, eram sete longos anos sem vê-la e sem trocar qualquer palavra com ela. Os mesmos cálculos eu refiz mais tarde para perceber que haviam se passado “apenas” cinco anos, quatro meses e doze dias. A saudade ofusca nossa percepção do tempo na mesma intensidade com que o sol baixo das tardes de inverno engana a visão. Mas eu estava, sim, enxergando direito: era ela quem vinha distraída na minha direção, sem se dar conta do reencontro iminente.

Nos primeiros meses depois de seguirmos caminhos diferentes eu andava por aí de olho em todas as pessoas à minha volta, uma a uma. Afinal, era só uma questão de tempo. Fomos feitos um pro outro, nosso amor vem de outras vidas. Nenhum desentendimento pontual nos separaria em definitivo. Além do mais ela sabia do meu hábito de caminhar pelas ruas do bairro onde um dia nos aproximamos, conhecia meus horários e os lugares preferidos. Não tardaria a aparecer de repente, com seu jeito confiante e aquele sorriso no olhar capaz de me desmontar por inteiro.Fingiria timidez ao me pedir rápidas desculpas por ter ido embora dizendo que me via como alguém sem perspectivas.E na cena seguinte já estaríamos de mãos dadas como se nosso último encontro tivesse sido no dia anterior. 

Mas esse filme só entrou em cartaz na minha cabeça.Na vida real ela nunca me procurou pelas ruas, não telefonou nem mandou e-mail.Agora o acaso nos coloca na mesma calçada, a poucos passos de nos encararmos novamente. Justo hoje precisava fazer esse calorão? Mês de julho e vinte e nove graus. De onde tirei a ideia de voltar a pé da consulta médica por esses cinco quarteirões de subida? Ela continua incrível; não usa mais meu corte de cabelo preferido, mas segue deslumbrante. E eu todo suado, testa brilhando, cabelo oleoso. Carrego um patético resultado de endoscopia digestiva e uma receita de Omeprazol. Num reflexo atravesso a rua e espio apenas para me certificar de não ter sido visto.Não consigo notar se há sinal de aliança no dedo.

Como teria sido se eu permanecesse naquela calçada? Ela me mostraria no celular, empolgada, foto de marido e filho?Ou choraríamos abraçados sem dizer uma palavra antes de nos beijarmos. A certeza é que amanhã, por volta desse mesmo horário, vou passar por lá. De banho tomado.Farei isso durante cinco anos, sete anos, cinco vezes sete. E nunca mais atravesso a rua. A não ser que, dessa vez, ela esteja do outro lado.