Curiosidade infantil



Bárbara Borba


- Mamãe, por que só eu tenho cabelo enrolado?
- Não é verdade, meu filho. Muita gente tem cabelo enrolado.
- Aqui em casa não. Todo mundo tem cabelo liso. Você, o papai, até o Gui.
- Isso é normal, Fê. As pessoas têm características diferentes. É uma das coisas que torna cada pessoa única.
- Na casa do Lucas todo mundo tem cabelo preto. Na casa da Letícia todo mundo tem cabelo amarelo.
- A Professora Tatiana tem cabelo enrolado. Aquela menina que vai na escola com você, filha da Sandra, também.
- A Sandra também tem cabelo enrolado. Igual o da Bruna. Porque é filha dela.
- Meu filho, nem sempre os filhos nascem parecidos com os pais. E não há nada de errado com isso.
- Só eu não saí parecido. O Gui também tem cabelo liso igual você.
- …
- Papai não tem cabelo. Aposto que seria liso se fosse grande. Só eu tenho cabelo enrolado.
- Tudo bem… É que o Gui é meu filho de barriga. Você é meu filho de coração. Por isso vocês são diferentes.
- O Gui não é filho de coração?
- Não… Quer dizer, de coração também. Mas nasceu da barriga.
- E eu nasci do coração?
- Sim.
- Por isso o Gui tem o olho da cor do teu e eu não? Por que ele saiu da barriga?
- Isso. Quem nasce da barriga sai mais parecido com os pais. Quem nasce do coração sai diferente.
- Hum.
- O que foi?
- O Jonas tem cabelo cacheado e essa pinta no braço igual a minha.
- Que… O quê?
- Ele não sabe de onde veio. Acho que a mancha significa que ele nasceu da minha barriga.

Primeiro beijo

Lucas Henrique Batista Pereira dos Santos


- Mãe, como foi seu primeiro beijo? Foi com o papai? Você gostou?
A mãe deixou o cesto de roupas no chão e sentou-se na cadeira da mesa de jantar de frente para a filha.
- Bem, filha, seu pai não foi o primeiro homem que beijei, já beijei vários homens. Mas ele foi o único que resolveu ficar, os outros foram embora e não voltaram mais.
- E com quem foi seu primeiro beijo?
- O nome dele era Lucas. Ele era lindo! Tinha cabelos cacheados, combinando com a cor dos olhos castanhos e o tom de pele branco, pouco marcado pelo sol.
- Você gostou?
- Nossa, foi maravilhoso. Ainda me lembro quando ele me convidou para caminhar na praia. Ele fazia academia e eu sempre gostei de exercícios. Quando terminamos a caminhada, sentamos na areia e ficamos vendo o pôr do sol. Eu disse, olhando para o sol: é lindo. Ele olhou para mim com aqueles olhos e disse: você também. Aí ele aproximou lentamente sua boca até a minha, colocando a mão entre o pescoço e o maxilar. Ainda sinto aqueles lábios encostando nosmeus. Lembro também que nesse momento não queria mais nada, só ficar ali, beijando ele para sempre.
- Então por que não ficou com ele?
- Porque ele conheceu outra e ela era muito mais bonita que eu. E também fazia academia, era mais o tipo dele.
- Mas você não ficou triste por não ser o cara certo?
- A principio, sim. Mas depois vieram outros mais interessantes. E depois veio seu pai, claro.
- Como você sabia que ele era o cara certo?
- Eu não sabia, mas ele me ajudou a descobrir. Me tratava como se eu fosse única no mundo. Trazia flores e chocolates. Hoje não traz, porque o trabalho ocupa muito tempo na vida dele, mas de vez em quando ele me surpreende com um buquê de rosas. Mas eu não saberia que era o cara certo, se não tivesse namorado ou conhecido outros rapazes.
- Hum...
- Mas me conta, você já teve seu primeiro beijo? Como foi? Você gostou? E como ele era?
- Na verdade, era ela.

E se ela continuasse algemada?

Milena Nunes



Acordou e ainda estava algemada. Esfregou os olhos com uma das mãos e tateou pela cama à procura dos óculos; encontrou-os perto da cabeceira e posicionou a armação próxima aos olhos, como gostava de usá-la, para ter certeza de que não deslizaria nariz abaixo.

Encarou, pelo espelho do armário capenga em frente à cama, seu cabelo desarrumado, tentando lembrar por quanto tempo ficara ali. Pela janela entreaberta, viu que já escurecia, o que lhe provocou um sobressalto; estava ficando com fome.

As algemas, presas em uma longa corrente metálica, permitiam que se deslocasse livremente por toda extensão do quarto, e também pelo corredor que conduzia ao cômodo subjacente, uma sala – que se encontrava em penumbra pelo avançado da hora. Ligou as luzes. Desnorteada, sentou-se na poltrona coberta pela malha de crochê e resmungou baixinho, lamentando ter perdido a chance de ir lá fora. Tentou ouvir o barulho do outro lado da parede, mas lembrou que há muito ninguém mais morava ali.

Então decidiu que tentaria sair sozinha mesmo, sem a companhia dos demais cativos, ainda que correndo o risco de ser castigada por seus captores. Já era noite. As algemas, apesar de já aderidas aos punhos, estavam corroídas pela ferrugem, então conseguiu removê-las, tracionando a parte serrilhada da pulseira metálica. Destrancou a porta, silenciosamente, e desceu os dois lances de escadas que lhe separavam da rua.

Abriu a porta e sentiu o vento quente de janeiro. Olhou para os dois lados e viu que muitas famílias pareciam retornar de seu veraneio. Sabia que aquelas pessoas não poderiam lhe ajudar caso fosse encontrada por eles, mas sentiu-se suficientemente segura para sair. Colocou o corpo para fora, fechou a porta cuidadosamente e começou a caminhar.

Já era noite. Chegou no mercado da esquina e a fila estava grande, o que lhe causou extremo desconforto, pois vira dois suspeitos no caminho: poderiam lhe causar problemas no retorno. Pediu três pães para levar. O atendente demorou-se na entrega do dinheiro, então pediu para ficar com o troco, já que tinha pressa em retornar. Acelerou o passo e atravessou a rua para desviar dos suspeitos que vira no caminho de ida. Não estavam mais lá.

Estendeu a mão para alcançar a maçaneta o mais rápido possível. Entrou e fechou a porta atrás de si. Fez o sinal da cruz, agradecendo por ter chegado até ali. Subiu as escadas, adentrou a sala e vestiu as algemas. Agora em paz, comeu a janta que havia comprado. Estava novamente onde seus captores esperavam que estivesse. Ligou a televisão para assistir às notícias do dia e, bebericando a xícara de café que havia preparado, contemplou as luzes da cidade pela janela.


O namorado

Fabricio Bernardo Pereira



- Pai, este aqui é o meu namorado, o Isaac. A gente tá junto tem alguns meses pai, e a gente se ama!
- Amanda, eu não acredito que você está namorando este, este...
- ...este garoto lindo, pai!
- Hum! Eu sei que ele é todo bonitão, parece até ator de cinema, mas...
- Ele é muito perfeito pai. Tipo, é inteligente, educado.
- Sr. Paulo, eu não poderia viver sem sua filha. Seria como o céu sem a lua e as
estrelas.
- Sei, parece que sim, Amanda... Mas como você pode ter tanta certeza de que ele
também te ama?
- Pai, eu sei que ele me ama, não é, Isaac?
- Eu amo a Amanda como ninguém, sr. Paulo. Amo seus olhos, seus cabelos, seu jeito de ser.
- Ok, ok, entendi. Ah meu Deus... Parece que esse tipo de coisa está cada vez mais
comum nos jornais e na TV, mas nunca imaginei que ia ver isso acontecer dentro da minha própria casa... Querida, como você pode achar que o conhece, que sabe quem ele é? Apesar de tudo que ele fala, ele me parece tão frio.
- Ai pai, nada a ver... Ele é ótimo, tipo assim, parece que ele conhece todos os meus pensamentos e...
- ...parece até que ele foi ensinado a fazer isso, né, querida?"
- Ah, fala sério pai, o que importa é que o Isaac é suuuper romântico, atencioso, e nem olha pra outras garotas. Eu quero muito que você o aceite.
- Amanda é o amor da minha vida, Sr. Paulo. Ela é o sol que ilumina minhas manhãs, a razão do meu viver.
- Oh, querido... Eu te amo, Isaac!
 -Eu também te amo, darling!
- Está bem, está bem... Só falta você querer beijá-lo na minha frente... Amandinha, mas ele é tão novo. Você não acha isso estranho?
- Dã, pai... Você sabe que isso não tem nada a ver. É como se ele tivesse vinte e poucos anos.
- Querida, acho muito estranho ter esta conversa com você e ele aqui ao seu lado, nos escutando.
- Ah pai! Pô, você fala como se ele não pudesse entender a gente!
- Tá bom, tá bom, querida. Mas desliga ele só um pouquinho então, pra gente poder conversar. Ou pelo menos coloca ele no sleep mode. Esses robôs me tiram do sério.

Gestação

Serafina Ferreira Machado

Quando roubaram minha história
no passado
Comecei a gestar este grito
que agora escutas.

Quando arrombaram minha casa
desde o passado
fiquei grávida de desejos
de justiça.

Quando invadiram nossas terras
fizeram buracos em nossa dignidade
fecundaram indiferença
regaram-na com nosso vermelho sangue
e com seu sêmen de branca violência.

Que rosto terá este filho?
Não terá olhos azuis-coloniais
Ou pele branco-patriarcal
Será um legitimo Soul, 
NEGRO costurado com revolta e dor.

Meu grito fe(i)to-filho age
rebela-se, levanta-se dentro de mim

E se ela se cansasse?

Fabricio Bernardo Pereira



Numa manhã ensolarada de verão, ela percorria lentamente o corredor principal. A porta do quarto de número quarenta estava entreaberta. O ar condicionado deixava o cômodo gelado, e o cheiro de urina e antisséptico impregnavam o ambiente. Deitado de lado, o velho homem só percebe sua companhia quando ela se senta na poltrona à sua frente.

Ainda acordando, levemente drogado, ele demora a reconhecer a visitante. Então se dirige a ela: “ah, você chegou... Apesar de tudo, não esperava que viesse tão cedo. Já está na hora?”

Sem responder à pergunta, com o corpo jogado e os braços caídos ao lado do assento, a cabeça apoiada no encosto, ela olha para o teto por longos minutos. Com um profundo suspiro, ajeita o corpo, apoia as mãos nos braços da poltrona e se levanta cuidadosamente. Estende a mão direita, convidando o velho a se levantar também. Sem serem vistos pela enfermeira que acabara de entrar, os dois saem do quarto e caminham lado a lado, rumo à saída do Hospital.

No dia seguinte, a Ceifadora tomava sua decisão: o mundo poderia suportar algumas horas sem ela. De pé, encostou a foice na parede de tinta descascada do hotel. Retirou os trapos que lhe cobriam o corpo, e os jogou no chão, espantando uma barata. Então saiu a caminhar. Primeiro sem destino, depois rumo à orla. Tomou um ferry, desembarcando alguns minutos depois na Ilha da Liberdade. Deitou-se embaixo da imóvel figura verde, e a observou detidamente: na mão direita estendida a tocha, na outra a tabula ansata. Uma corrente quebrada sob seus pés.

Continuou observando-a, e os minutos se tornaram horas. As horas, dias. Em certo momento, ouvia a conversa de um casal que sentara à sua frente: “É verdade!” dizia o rapaz. A namorada, disfarçando um bocejo, tentava prestar atenção na longa história. “Ela estava desenganada pelos médicos há meses! Saiu ontem do hospital, andando com as próprias pernas. E aquele garoto do México”, continuou o jovem, “que foi atropelado por um ônibus, saiu da UTI depois de dez dias. Os médicos disseram que era um milagre. E não é só: eu li ontem que são dezenas de outros casos em todo o mundo!”, tagarelava o garoto, de forma incessante.

Ela então se deu conta do tempo que havia passado. Tinha trabalho a fazer. Voltou ao quarto do hotel e vestiu sua roupa. Tomou a foice da parede, sem se importar com as teias de aranhas que seguiam dependuradas no cabo. Olhando pela janela em direção à Lower Manhattan, falou baixinho para si mesma: “preciso recuperar o tempo perdido”. E naquela manhã ensolarada de verão, o primeiro avião atingiu a Torre Norte às oito e quarenta e seis. O impacto foi ensurdecedor. Às nove e três, o segundo Boeing atingiu a Torre Sul.

E se ele atravessasse a linha?

V.B. Felipe


Esta é uma carta de confissão. Mãe, pai, eu sinto muito. Eu assassinei uma pessoa, uma desconhecida com quem eu jamais troquei uma única palavra. Eu a via todos os dias, voltando do colégio. Todos os dias, no mesmo horário, ela passava por mim como se eu fosse nada. Mas isso não importava, porque ela também era nada para mim. Menos que nada. 

Acho que nunca tive uma ereção tão intensa quanto naqueles últimos segundos em que sua vida expirava sob minhas mãos. E, quando ela finalmente deixou de respirar, eu sabia que nunca mais iria parar. Atravessei a linha imaginária que eu mesmo havia riscado em minha frente quando era apenas uma criança. 

Vocês sempre souberam, não é? Por favor, não se culpem. Eu não poderia ter tido pais melhores. Mas isso não foi suficiente para evitar que eu os odiasse profundamente. Percebem agora? Vocês seriam os próximos. Talvez não agora, talvez não amanhã, mas um dia com certeza. 

Sugiro que vocês liguem para o número que está em cima do criado-mudo antes de seguir adiante. 

Certamente quem atendeu foi uma garota chamada Thaís. Thaís, meus caros, iria morrer amanhã à noite. Estão aliviados? Estão reconfortados? Não fiquem. Finalmente percebi que não conseguiria mais evitar. 

Então, não se sintam culpados. Eu fiz isso por vocês, fiz por Thaís, fiz por cada uma das pessoas que conheço e viria a conhecer. Quero que chamem a polícia e, quando eles chegarem, vão encontrar meu corpo no quarto. Aconselho que não entrem, um cadáver enforcado não é algo bonito de se ver. Eu sei, eu estudei. Era assim que iria matar você, mãe. 

Então é isso. Lembram-sedaquela linha que tracei em minha frente anos atrás? Eu parei em cima dela. Espero que sintam orgulho de mim porque, com este ,ato eu salvei diversas vidas. E alguém que salva vidas só pode ser considerado um herói, não é?

O Portão

Raquel Cristina Gervino Gale






Roberto Carlos

Fazia quinze anos que tinha estado na cidade pela última vez. Não teve a coragem de voltar antes, não suportaria a dor que viria à tona.
Lembrava-se de tudo como se o tempo não tivesse passado. O portão de ferro batido, pesado, enferrujado e trabalhado em estilo barroco. O quintal, o pomar, o coreto, o cheiro das roseiras.
Em meio às lembranças e embalado pelo movimento constante do ônibus, pegou no sono. Quando acordou já estava na rodoviária. Desceu procurando um táxi e deu logo o endereço que nunca foi capaz de esquecer.
— Alameda dos Oitis, número 11, por favor.
— Casa da D. Mariana Guerra?
— Isso.
— O senhor não é o Fernando, filho da D. Cássia?
— Sou eu. Nos conhecemos?
— Sou o Torquato. O senhor não lembra de mim, mas eu lembro do senhor. O senhor sumiu!? Mas tá a mesma coisa....
— Obrigado.
Ao virar na Alameda dos Oitis, o motorista não se conteve e entrou nos particulares que ensaiava abordar desde que reconheceu o passageiro.
— O senhor Fernando sabe que D. Mariana nunca mais saiu de casa desde que o senhor foi embora? — olhou o passageiro pelo retrovisor, cobrando resposta.
Fernando ficou calado, desviou os olhos dos do taxista.
— Acho que é doente de tristeza, Sr. Fernando! Vocês formavam um casal tão bonito, pareciam tão felizes. Se o senhor me permite, por que ir embora tão de repente?
— Pois é, Torquato.... É a vida, às vezes é ela que faz planos pra gente. — Avistou o portão se aproximando.  — Aqui está ótimo. Obrigado.— Pagou, despediu-se sem mais intimidades e saiu do carro.
De frente à casa, colocou a mala no chão e sentiu como se nunca tivesse saído dali. Empurrou o portão e o Duque veio recebê-lo. Pulava e abanava o rabo como sempre, só que agora com mais vagar. Abraçaram-se como velhos amigos!
Caminhou lentamente pelo corredor de gardênias até a porta, que estava aberta. De fora, viu a foto do casamento ainda na parede, amarelada pelo tempo.
O clima de dejavù foi quebrado repentinamente pela batida retumbante de uma bola de futebol contra a parede do corredor. Na sequência, um bater de pés barulhento e apressado. Os dois se estranharam e permaneceram imóveis por alguns instantes.O peito apertou e a dor foi lancinante.
— Mãaaae, tem um homem aqui na sala!

E se não fosse um lobo mau?

Carol Silva




Chapeuzinho Vermelho não era seu verdadeiro nome. Só era chamada assim por causa daquela capa medonha que a mãe fazia ela vestir toda vez que saia de casa. Chamava-se Leila, um nome que a agradava muito, mas que ela só ouvia quando a professora fazia a chamada ou quando conversava com sua avó. Usava a capa para ir à escola, ao armazém e a casa da vovó, os únicos três lugares que a mãe lhe permitia ir sozinha.

De todas as atividades, a que mais gostava era ir visitar sua avó e fazia isso todos os sábados de manhã, levando bolinhos feitos pela sua mãe. Era sagrado, todo sábado, sem falta. A avó estava sempre pronta para recebê-la. A mesa do café posta com aquelas xícaras de porcelana que ela adorava, os talheres antigos de prata e a toalha de renda branca tão cheirosa. Ficava horas ouvindo as histórias da vovó sobre sua viagem de navio, quando veio da Europa sozinha para o Brasil, ou de quando lutou em defesa dos direitos das mulheres. A vovó também falava do avô, um homem muito bom, que havia sido seu maior encorajador para que ela estudasse e tirasse seu diploma. Ficava imaginando como era esse homem, que ela nem havia conhecido, pois morrera muito tempo antes de ela nascer. Às vezes, Chapeuzinho sentia pena da vovó, vivendo naquela casa, sozinha, tão afastada de todos. No entanto, a vovó sempre dizia gostar muito do seu estilo de vida.

Um sábado, Chapeuzinho amanheceu com uma indisposição estomacal e não pôde fazer sua habitual visita. Passou o dia de cama, se recuperando. No domingo, acordou bem e implorou para sua mãe que a deixasse ir até a casa da vovó, que deveria estar profundamente preocupada, já que não havia aparecido no dia anterior. Depois de muita argumentação, a mãe deixou. Preparou a cesta com os bolinhos e pediu que a filha não demorasse. 

Quando chegou a casa de sua vovó, Chapeuzinho empurrou a porta, que estava sempre aberta. Ficou muito feliz quando viu a mesa já posta para duas pessoas, como se a vovó já imaginasse que ela viria. Foi entrando e chamando sua avó. A casa era muito pequena, então ela só podia estar no quarto. Empurrou a porta do quarto, fazendo um rangido. Ao mesmo tempo, Chapeuzinho viu um vulto saltar da cama e parar ao lado da janela e quando olhou para a cama viu sua avó cobrindo o corpo até a altura do nariz. Olhou para o outro lado e viu um senhor, sem camisa, de calça jeans, sorrindo meio sem graça. Chapeuzinho deu alguns passos para trás, ainda observando a cena e depois correu em direção a sua casa.

Enquanto corria, uma sombra avermelhada a perseguia, efeito da sua capa esvoaçante. Ela sentia algo lhe apertando, mas não sabia ao certo se era dentro ou fora da garganta. Decidiu desatar o nó da capa e soltá-la de seu corpo, deixando para trás o pano encarnado no meio da floresta.

E se você acreditasse




Rafa Fontes

Você soube um mês antes. Pediu as contas no emprego e foi para casa ao meio dia. Brigou com a esposa, que não acreditou naquela história.Você sempre disse que ela devia crer mais na palavra, mas não adiantou. Separou-se, deixou-a em casa com o filho e, em uma semana estava em um kitnet alugado. Triste, você se despediu do menino como se fosse culpado por ter reproduzido, por tê-lo colocado nesse mundo, como manda o livro, para ele viver apenas até ali.

Em duas semanas você vendeu seu carro, passou a andar de transporte público.
Queria morrer sabendo o que passam os fiéis mais pobres nas ruas da cidade. Em vida, jamais. Admirou, como ainda não havia feito, a vista urbana do lugar em que você morava há anos. Descobriu bairros, prédios, parques, cores, pessoas, animais. Você havia ficado rico por ter trabalhado a vida toda, mas não conhecia nem metade dos prazeres de sua sociedade. Ali, desconsolado, se perguntava por que.

Em três semanas, você começou a gastar tudo o que tinha. Se é para morrer, vamos morrer feliz. Comeu todas as porcarias que seu estômago fraco evitava, andou por todos os lugares que seu medo impedia, descobriu pessoas de paz onde só imaginava terror, pagou prostitutas que jamais pagaria e transou com mulheres que jamais transaria e passou a noite em lugares onde nunca deitaria.
Embriagou, brigou, roubou, endiabrou.
Sangrou, sarou, chorou, rezou.

Na última noite vomitou seus sonhos em qualquer bar, acompanhado de qualquer um que esperava, coincidentemente, aquele mesmo meteoro.

- Você também acredita – você perguntou com a língua anestesiada.
- Claro que sim - respondeu o outro, cuspindo uma saliva alcoólica – Aquela merda vai cair e destruir tudo o que conhecemos.
- É por isso que estou aproveitando meus últimos dias assim – você completou, dando um soco no balcão e pedindo ao garçom para encher mais uma vez o seu copo – Construí uma carreira segura, uma família linda e temente a Deus, uma poupança gorda... e pra quê? Pra acabar tudo assim, com uma maldita pedra explodindo o planeta. Bela bosta! De que me serviram todos os mandamentos do Senhor?
- Pois é. Eu vou acabar a minha cachaça aqui e vou correr para a minha família. Apesar de tudo, nem Deus me faz ficar longe deles essa noite.

Você, descrente com a vida, esperançoso com a morte, preferiu morrer só com a sua crença.
Ajoelhou, rezou, aguardou a hora escura da madrugada em que seriam atingidos. Porém, amanheceu. Ouviu, da kitnet no nono andar, os carros, as ambulâncias, as vozes, a cidade, o mundo, a vida, mas não ouviu meteoro algum. Se passou, passou longe.

Você ponderou. Olhou no celular a conta bancária vazia.
Sentiu uma forte dor no estômago e sentiu seus órgãos arderem e coçarem enquanto urinava.
Lembrou da esposa e do filho, abandonados.
Na janela, olhou para baixo. Subiu no parapeito e deixou-se cair enquanto pensava: E se eu for meu próprio meteoro?

Um Menino

 Amanda Piazza



- Tô em casa... – diz a mãe, em voz baixa, ao entrar no apartamento. - Oi, mamãe! Tava com saudade.
– A menina se pendura nas pernas da mulher, eufórica e suada. - A mãe também, meu amor. Como foi seu dia? – diz, afastando o rosto ligeiramente para o lado. - Foi muito legal! Vovó me levou ao parquinho, e ela comprou sorvete de baunilha. Eu conheci um menino hoje, o nome dele é Roberto. Ele é novo no prédio e tem cinco anos também! E ele é muito engraçado... – A menina se interrompe, notando uma expressão estranha no rosto da mulher. – Mãezinha?
- Oi, filha. - Você tá chorando? Tá tudo bem? – pergunta a criança, balançando o corpo nervosamente.
- Tá sim. A mamãe só está com saudades.
– A mulher limpa pequenas lágrimas que brotam de seus olhos e acaricia a cabeça da filha.
- Saudades do quê?
- Do seu irmão. Hoje faz dez anos que ele foi morar no Céu.
- E por que ele foi morar lá? – pergunta a criança, encostando-se no sofá.
- Ele tava muito doentinho, aí o Papai do Céu decidiu levá-lo daqui. Aqui ele estava muito triste.
- Quantos anos ele tinha quando foi embora?
- Cinco, igual a você.
– A mulher faz um carinho no nariz da filha
– Mas então, Papai do Céu percebeu que a mamãe ficou muito sozinha aqui, na Terra, e decidiu mandar outro anjinho para cuidar dela. E esse anjinho é você – ela sorri, entre lágrimas, para a menina. - Mãe...
O Papai do Céu não deveria ter levado ele embora, porque você tá triste. Ele deveria ter curado o dodói do meu irmão. Eu queria que ele estivesse aqui pra brincar comigo.
- Mas agora você tem o Roberto, não é?
- É, mas ele não mora aqui em casa, não é a mesma coisa.
 - Ah, filha... Já faz tempo que seu irmão foi embora. Agora ele é um anjo, lá em cima. E ele pode cuidar de você.
- Como que ele sabe quem sou eu?
 - O Papai do Céu contou pra ele que mandou a menina mais bonita para fazer companhia à mamãe. Então, ele encontrou você bem rápido.
- E por que a gente não pode ir visitar ele no Céu?
- Porque fica muito longe daqui. Mas se você se comportar direitinho, quando ficar bem velhinha, vai morar lá no Céu com ele.
- Mas, mãe... Vai demorar muito tempo pra eu ficar velhinha. Queria falar com ele agora. - Eu vou mostrar uma foto dele para você, aí você pode imaginar como ele era, e até conversar com ele. É só juntar as mãozinhas assim – ela entrelaça os dedos das mãos em frente ao peito –, e falar pelo pensamento. Vem, eu vou pegar uma foto.

***

- Achei – diz a mãe, voltando com um baú nas mãos.
 – Seu irmão adorava tirar fotos. - Ele era parecido comigo? – pergunta a menina, revirando os retratos. - Humm, era. E ele adorava contar piadas, sabia? Igual a você. Olha, encontrei uma foto. Esse aqui, do meio, é o seu irmão.
– A mulher mostra uma foto com três garotinhos sorridentes, e aponta para o menor deles.
- Mãe? - Oi, filha. - Tem certeza que o do meio é o meu irmão?
 – A menina morde o lábio inferior, pensativa e confusa.
- Tenho sim. Olha para os olhos dele! São azuis, iguaizinhos aos seus – responde a mãe, juntando o rosto da filha ao da foto. Ela deixa escapar mais algumas lágrimas.
- Esse daqui não pode ser ele.
– A filha se levanta bruscamente.
 - E por que não? - Porque esse ...
– A menina faz uma longa pausa, analisando com cuidado o retrato nas mãos da mulher.
 – Porque esse é o Roberto, mãe.

E se eu me atirasse da varanda?

Mayra Pelissari



E então noivamos. O plano era nos casarmos dali um ano e meio. Perfeito para planejarmos igreja e tudo o que engloba uma festa de casamento dos nossos sonhos dentro dos nossos limites financeiros, afinal a prioridade era a moradia. Começamos então a pesquisar na internet apartamentos pequenos em bairros que fossem perto dos nossos trabalhos e de fácil acesso para visitar nossas famílias. Havia muitas ofertas e de preços variados. Demoramos mais ou menos um mês até acharmos o nosso ponto de equilíbrio, afinal o que era ótimo para mim era bom ou até mesmo irrelevante para ele e vice e versa.

Passada essa fase inicial, passamos para as visitações. Era um sonho se tornando realidade. Cada apartamento que entrávamos, mesmo que alguma coisa não me agradava logo de cara, já conseguia imaginar do nosso jeito. Como que ficariam acomodadas as nossas coisas e como seria a nossa vida ali. Teríamos um gato ou um cachorro? Melhor um vaso de planta. Receberíamos mais amigos dele ou mais os meus para as pizzas e os vinhos? Não importa. Ele concordaria em me dar mais portas do armário? Tenho tantos sapatos e bolsas! O importante mesmo era nossa parceria durar. Foram mais alguns meses nesse “calvário” da triagem física. Visitações e mais visitações. Conversas e mais conversas. Testes e mais testes no relacionamento pré casamento.

Numa certa quinta-feira, ele me ligou. O corretor havia entrado em contato com ele dizendo que tinha surgido uma oportunidade única. Um apartamento um pouco fora da rota original e também um pouco fora da faixa de preço que havíamos estipulado, porém não nos arrependeríamos pelo espaço de convívio social, pelos armários embutidos na cozinha e área de serviço. Sem contar os armários de ótima qualidade dos quartos e a varanda pequena e aconchegante. Decidimos então ir visitar no sábado, afinal só nos custaria tempo e gasolina.

Quando entramos no apartamento, algo me deixou curiosa. Conforme íamos avançando, crescia em mim um sentimento de não parar. E eu não parava. Explorei sozinha cada cômodo. Até chegar na varanda. Por lá fiquei com sentimentos e pensamentos vagando dentro de mim. Estávamos no 12º andar. Eu olhei para baixo e foi fascinante. Tive vontade de me atirar. De que forma eu cairia naquele chão? De que forma chorariam a minha morte? De que forma eu sentiria a queda? Eu me arrependeria no meio da queda? E se me arrependesse, como eu faria para voltar? E se acontecesse um fenômeno e eu voaria? Meu Deus! Qual seria essa sensação? Qual seria o primeiro lugar para o qual eu me conduziria?

Senti uma leve vibração, mas que fez meu corpo ir um pouco para a frente mesmo que meus pés não se movessem. Por alguns instantes tive a sensação que fui atraída pelas minhas questões e meu corpo obedeceu, mas meus pés não deixaram. Escutei meu nome bem ao longe e um toque carinhoso em meu braço. Era ele me chamando para ir embora. A vibração sentida foi o corpo dele chegando perto. 

Segurei minha bolsa como se estivesse me agarrando de volta à vida e talvez sentindo um pouco de tontura. Cruzei a sala sem móvel e saí do apartamento sem resposta alguma para as perguntas que tinha feito a mim mesma momentos antes. 

E se ...

Maria Tereza Vieira Lopes


Como de hábito, enquanto tomava meu café da manhã, observava furtivamente o vizinho da casa em frente. Homem de uns quarenta anos, morava na companhia da esposa até a morte dela, há cerca de uma semana. A casa já era demasiado grande para duas pessoas, e agora parecia um imenso navio sem tripulação. Apenas um capitão solitário indo e voltando do trabalho e, ao chegar, envolvido com tarefas de limpeza e organização, como se a conservação do espaço tivesse o poder de dar continuidade a uma vida que já não existe.

Antes parecia haver sempre uma aura de alegria em volta deles, e, se alguma vez adivinhei que discutiam, logo voltavam à rotina dos abraços, tudo se resolvia sem deixar marcas. Acompanhei, sempre protegida pelo vidro escuro, a degradação física da mulher, acometida por doença grave, que os fazia sair rotineiramente e voltar abatidos, ela tendo que ser amparada para subir os poucos degraus da frente. 

No último mês, ele passava o tempo todo em casa, certamente velando pela mulher já destruída pela doença. Eu ainda podia vê-lo, emagrecido e desanimado, nas poucas vezes em que se permitia tomar um ar fresco, em frente à casa.

Pensei muitas vezes em invadir a fria aura de tristeza que agora era a moldura de um lar outrora cálido e apresentar-me à porta, oferecendo alguma palavra, algum conforto. Mas como fazê-lo, sem parecer obsessão o carinho que nutria pelos dois, à distância, com inveja daquele amor doce e tranquilo que os unia?

Retraí-me, sempre, e mantive meu silêncio. A cada dia, notava-o absorvido pelas tarefas de organizar a casa. Até que o movimento cessou, súbito, e por dois dias minhas idas à janela não fizeram mais sentido. No terceiro dia, percebi alguém que batia à porta, com insistência, logo depois o carro da polícia, e mais gente acorreu. Foi encontrado suspenso por uma corda, o corpo sem vida, no quarto onde passou seus melhores e piores momentos.

Chorei minha culpa intolerável por vários dias: E se eu tivesse cedido ao impulso de levar-lhe uma palavra de consolo?





E se eu não tivesse roubado?




 Cintia Aquino

Todo o esforço do trabalho do meu velho, como carinhosamente passei a chamar papai na vida adulta, era para pôr comida na mesa, comprar roupas e, se fizesse hora extra, algum material escolar para mim e meus quatro irmãos. Terminei o colegial na década de cinquenta, como de costume haveria uma cerimônia de colação de grau organizada pela escola, mas financiada pelos pais dos alunos. Toda a pompa da solenidade da formatura não me fazia falta, mas eu ansiava que papai se orgulhasse de mim. Queria que ele me olhasse com o mesmo olhar de admiração que contemplava os graduados no anuário da escola. Daí surgiu a ideia que valeu aquele sorriso!

Era tarde da noite quando eu e o Robinho, meu melhor amigo de infância, escalamos o muro da escola e pela janela do pátio invadimos a sala da diretoria. Tiramos do armário duas becas de formatura e um capelo azul com um pingente de cetim branco na quina. Mãos trêmulas e corações acelerados, pulamos o muro de volta e corremos para nossas casas. Na manhã seguinte, reencontrei o meu cúmplice e fomos bater na porta do único fotógrafo da cidade: "Seu Didi, o senhor poderia tirar nossa foto? Não temos dinheiro para lhe pagar, mas podemos lavar o carro do senhor e capinar o seu jardim”. Enquanto esperávamos ansiosos pela resposta, o Sr. Dimaceno nos olhava desconfiado, com a testa franzida, enquanto eu torcia para que ele aceitasse a proposta sem fazer perguntas. O medo de ser questionado e de que toda a história fosse parar nos ouvidos de papai faziam com que meu coração pulasse tanto quanto na noite anterior.

Fotos batidas, restava agora retornar as becas sem que notassem que elas passaram um dia fora do armário. Assim logramos. Respirei aliviado. Quando as fotos ficaram prontas, o Sr. Dimaceno foi entregar pessoalmente lá em casa e quem atendeu ao portão foi papai. Só então me dei conta de que não existe crime perfeito. Esquecemos de pedir segredo ao fotógrafo.

Me escondi atrás da porta com medo da reação de papai ao ver a fotografia. Eu não conseguia ouvir o que o Sr. Dimaceno conversava. Mil coisas se passavam pela minha cabeça, inclusive fugir para não ter que encarar as consequências do que eu tinha feito. Para minha surpresa, papai sorriu e seus olhos encherem de lágrimas ao me ver vestido de beca e capelo naquela fotografia. O momento de emoção foi breve, logo veio uma enxurrada de perguntas e demandas por explicações. Lembro-me do sermão e a dor do castigo, mas sei que se eu não tivesse roubado a beca, eu não teria visto o meu velho esconder aquele sorriso de orgulho em nome de sua coerência moral para repreender o meu mal feito.






Mulher como te vejo



Maria de Lourdes Chauffai

É mãe, filha, tia ou prima
Trabalha fora e em casa
Onde mantem o bom clima
Mas, deixa acesa a brasa.
Corre para arrumar as crianças
Faz o lanche para o recreio
E limpa todas as lambanças
Cuidando até do problema alheio.
Se é Ana, alivia a angústia e afaga a alma de alguém.
Se é Beatriz, beija a beleza do benzinho no berço.
Se é Camila, caminha calmamente construindo sua carreira.
Se é Denise, desfaz a desilusão da dolorosa derrota.
Se é Elisa, entrega o elixir a seu elegante elenco.

É madrasta, sogra, esposaou neta
Lava roupas, faz comida.
Gosta de andar de bicicleta
E aguar a linda margarida.
Discute com o gerente do banco
O cheque foi devolvido
De raiva, quase bate o tamanco
E pode dar a isso um apelido.
Se é Fernanda, felicita com fervor o fabuloso feito da família.
Se é Gertrudes, gesticula na gigantesca ginástica germinativa.
Se é Helena, hesita hipnotizar o hercúleo homem.
Se é Iara, iguala a índole incrédula dos ímpios.
Se é Judite, com juízo justifica o juramento de justiça.

É avó, sobrinha, enteada ou nora
Prende botão, passa ecerze roupa.
Pinta os olhos, penteia o cabelo.
Não pode sair desalinhada como louca
Seja lá qual for o atropelo.
Se é Laura, labuta na lide levando a láurea.
Se é Maria, marcha machucada mastigando a mágoa.
Se é Nair, navega num navio de névoas e nervuras
Se é Ofélia, oferece oferendas no ofertório.
Se é Patrícia, pacatamente pacifica a paciente.

É amiga, amante ou a outra
Age sempre como profissional
Não carrega culpa, mas fica cansada.
Ainda acha tempo paraa caminhada.
Lê e sonha com lugares paradisíacos
Todavia a realidade da sua estrada
Nunca a leva além do cheiro de amoníaco.
Se é Quitéria, quita quieta a questão da quinta.
Se é Renata, renasce rente à relva, resignada.
Se é Silvia, silencia o silvo do símio silvestre.

É irmã, companheira ou afilhada
Com tal empreitada se sente ilhada
Dos filhos que tanto amou
Apenas lembrança restou.
Se é Úrsula, urge usar a urca e usufruir de utopia.
Se é Vera, verbaliza a verdade sem vergonha.
Sé Xênia, xinga o xale que xumbrega o xaxado.
Se é Zilda, ziguezagueia zonza com o zumbido zureta.  
Mulher é tudo ou é nada
Depende do nome e da jornada.



E se o tempo pudesse voltar




Kelly Santos

Se o tempo pudesse voltar, estaria com sete anos de idade em minha casa aconchegante e confortável. Ficaria com o olhar fixo no relógio de parede da cozinha, contando as horas para papai chegar, não sabia olhar as horas naquele relógio, mas decorei a posição exata dos ponteiros só para vê-lo abrir a porta. Mamãe estava sempre ocupada com os serviços do lar e não tinha muito tempo para mim, nosso velho labrador só queria ficar deitado perto do sofá, já estava sem força para aguentar meu pique. Então, ao contrário da maioria das crianças o melhor momento do meu dia era fazer a lição de casa com meu pai, um homem muito inteligente e amável ao contrário de mamãe, ele tornava tudo tão simples e agradável fazendo minha dificuldade desaparecer no momento que sentava ao meu lado para começarmos nossa aventura pelo mundo do conhecimento.

Papai agia de forma diferente comigo, sempre me dizendo o quanto eu era inteligente e capaz de superar todos os desafios em minha vida. Não entendia bem por que falava aquilo e mesmo sem entender aquelas palavras, me sentia a menina mais forte do mundo. Ele encenava todas as histórias e dávamos muitas risadas, mamãe às vezes passava pela porta do quarto e olhava para nós como se estivéssemos loucos. Depois de terminado o dever de casa papai como sempre ia para seu escritório ler o jornal.Lembro de todas as noites chegar o rosto na porta só para vê-lo antes de dormir, como já sabia de minha atitude me olhava por cima dos óculos e sorria para mim.

Um certo dia enquanto tomávamos café da manhã papai me disse que faria uma viagem, pois vovó não estava bem e pediu para ele ir em sua casa, fiquei muito triste, minha lição de casa seria sem graça e sem emoção e como falou que iria demorar uns dias, meu passeio de sábado no parque também seria adiado. Ainda consigo sentir o beijo que me deu antes de sair e o abraço apertado que dei nele, corri para o portão e fiquei olhando meu pai até dobrar a esquina em seu carro novo.


Passado alguns dias voltei a olhar fixo para os ponteiros do relógio até ficarem na posição que já conhecia e mesmo assim papai nunca mais voltou se o tempo pudesse voltar naquela manhã, eu não teria deixado meu pai sair, teria escondido a chave do seu carro ou se isso não fosse possível teria ido com ele. 

E se eu pudesse voar?



 Aldo Campos Vieira

A vida passa ligeiro, cada vez mais ligeiro. Minha madrinha diz que é porque andamos sempre pelo mesmo caminho, fazemos sempre as mesmas coisas, passamos por tudo e olhamos sem enxergar. Já ao anoitecer, nem nos lembramos como foi o dia, dormimos, acordamos e começamos tudo de novo. Ela é também minha professora e me deu um livro sobre borboletas. 

Outros aqui acreditam piamente que o destino já está selado, hermeticamente selado, não adianta querer escrever a sua própria história. Os caminhos, as trilhas, os atalhos já estão lá marcados na eternidade como um percurso definido em um mapa. 

Eu nunca acreditei muito nisso. Sempre quis fazer a minha própria trama. Às vezes, minha imaginação voa tentando enxergar outros domínios, jardins mais floridos, novos perfumes... 

Mas não vou negar. Eu cresci com essa tal espada do destino sobre a minha cabeça. Em vários momentos pensei que Deus não tinha escrito uma boa história para mim. Somos onze filhos dividindo com os pais uma casa simples de pau a pique, em um pequeno pedaço de terra na zona rural do sertão nordestino. 

Meu pai não consegue produzir o suficiente para nosso sustento. Minha mãe ajuda na roça e no que pode. Apenas os três filhos mais jovens ainda estudam, eu e mais dois. Os outros já estão na labuta com o pai, rezando para que neste ano a água finalmente caia do céu. Eles não reclamam da vida, é o caminho que reconhecem. Mas eu não. Quero estudar, aprender e voar mundo afora. 

Quando as coisas estão muito difíceis, imagino que isso tudo é como um casulo, uma fase de amadurecimento, como está escrito no livro que ganhei. Assim eu deixo meus sonhos vivos e consigo levar alegria aonde vou. Minha mãe sempre diz que sou a luz da família, única filha mulher, agora com nove anos. 

Mas, mesmo seco e castigado, o sertão tem sua beleza e eu sempre dou um jeito de explorar os arredores e observar o que mais admiro: a força das flores que teimam em brotar do solo quase estéril. Nessas horas, a realidade parece se distanciar um pouco de mim. 

Outro dia subi por uma trilha afastada que termina no alto de um morro, cuja formação rochosa se ergue muito acima do chão e forma um enorme despenhadeiro. Quando chegava ao local, ainda tinha um último restinho de sol. Apressei o passo, queria contemplar o mundo inteiro. 

Era um local bonito com uma vegetação densa e várias espécies de flores que eu ainda não conhecia. Faltando poucos metros para o ponto mais alto, dei de frente com três meninos. Eles eram mais velhos do que eu, mas ainda traziam no rosto traços de uma certa inocência dos moleques típicos do lugar. Sorri, mas senti o peso de olhares estranhos. 

De repente um baque forte, e caí. Ainda zonza, vi minhas roupas serem arrancadas com violência, tudo escureceu. Quando acordei, olhei em volta, sozinha, assustada, vi os três se afastarem arrumando as roupas e rindo alto, sem nem olhar para trás. Eu não sabia muito bem o que tinha acontecido, estava com muitas dores e quase desacordada, jogada no meio da vegetação. Sentia o perfume das flores laceradas na angústia do ataque e uma estranha metamorfose apoderar-se de mim. 

Encolhi-me o mais que pude, teci com os braços um casulo em volta de meu corpo pequeno e nu, me protegendo da noite fria que caía. Entre estranhos sonhos e calafrios, fiquei ali, quieta, até finalmente amanhecer, crisálida, com a vida por um fio. 

O sereno havia endurecido a minha pele. Abri os olhos lentamente e com esforço profundo rompi o casulo. Os raios de sol tocaram minhas asas ainda frágeis, que foram se abrindo com o calor forte, asas lindas como eu sempre sonhei. Usei as últimas energias que me restavam e levantei, andei lentamente tentando me acostumar com aquele corpo transmudado, fui até a beira do precipício e voei. 

E se eu cair?

Vitória Cássia Paliari



E se eu cair? E se eu transformar todos os olhos expectantes de fascínio lá embaixo em vítimas do pavor? Basta errar um movimento e vou metamorfosear a arte do trapézio no espetáculo da morte. Que graça há nisso?

Para quem me enxerga de fora, pareço confiante. Ninguém adivinharia que, apertada no corset de purpurina dourada e com as mãos escorregadias de suor limpá-las não ajuda em nada, são terrivelmente obstinadas , estou pensando no que será de mim se eu cair. Minha carne vai decorar o picadeiro, é claro, e talvez meu corpo dê uma última estatelada antes do fim será que meus ossos triturados irão parar nas manchetes? É possível que eu resista alguns minutos, e será uma grande frustração quando eu perder totalmente a cor dos vivos dentro da ambulância, as sirenes fazendo ióióió, a menina virou pó. Vão me enterrar ao lado de estranhos, como acontece com os desafortunados de todas as naturezas, mas quem sabe São Filomeno tenha piedade da minha alma e a presenteie com bons amigos no outro lado. Se eu cair, esquecerão o episódio daqui a dois meses e seguirão suas vidas. É assim que o mundo funciona.

Por outro lado, se eu não cair posso virar uma estrela minha mãe, os céus a tenham, sempre dizia que, depois que morremos, viramos estrelas no céu. Mas agora me refiro a estrelas na Terra. Serei eu a brilhar nas capas de revista, meus turvos olhos amarelados e sobrancelhas tortas dominando o mundo. Vou reinventar a gravidade como a maior trapezista de todos os tempos, vou rir para os flashes, ter uma coruja de estimação e nunca mais vou passar fome. Mais ninguém vai rir de mim, a não ser que eu deixe. Serei eterna para sempre. Se eu não cair, poderei lutar. Talvez até me apaixone não seria maravilhoso? Oh, sim, seria! Justo eu, que nunca fui vista como algo além de um pequeno objeto torto e leve, bonita de longe e carismática de perto. Sim, definitivamente eu mereço mais! É assim que o mundo deve funcionar.

Com os olhos concentrados e as mãos apertadas ao redor da barra de ferro, dou o primeiro impulso. Não há chão sob meus pés estou mais perto de Deus do que qualquer um presente. Meu corpo desenha curvas no ar e um par de mãos fortes me leva para o outro lado. Sorrio, vendo resquícios de purpurina dourada caindo, e o medo se dissipa quando o enfrento de novo, tantas e tantas vezes que não consigo parar.

Até que...

Minha palma suada escorrega.


E se eu sobreviver?

E se eu tivesse ido?

Renata Menezes


Está tão confortável aqui no meu apartamento. Bebo uma taça de Lambrusco. Estou jogada no sofá; na mesinha ao lado, o resto da pizza. A moça da pizzaria deve pensar que sou uma solteirona solitária, sempre peço pizza individual, de apenas um sabor. Já cogitei ligar para outro restaurante, mas concluí que a opinião dela não valeria o trabalho. Além disso, a pizza é boa. 
Na TV, um episódio de Friends. Parei de prestar atenção, perdida em minhas conjecturas. Quem precisa de companhia depois que inventaram o Netflix? Acompanhar a vida de personagens fictícias me parece mais interessante que a vida real.

Olho novamente para meu celular. Na tela, a mensagem de uma hora atrás: “Você não vem?”. Ainda não respondi. O convite foi inusitado. Eu não tinha percebido as atenções voltadas para mim. Uma pergunta tola aqui, um comentário inocente acolá, parece que vai chover hoje, o café está horrível, você gosta de almoçar naquele restaurante do outro lado da rua? Vamos juntos para a festa da empresa? Respondi que ia pensar, que não sabia se poderia ir. Avisaria quando decidisse. 

Talvez ele fosse uma pessoa agradável, de conversa fácil. Poderíamos beber um pouco, rir juntos e fazer comentários maldosos sobre as chefias. Eu fingiria estar bêbada e o convidaria para vir até meu apartamento. Ele elogiaria a vista da minha varanda, perguntaria se era nascente ou poente e se ficava muito quente no verão. Bisbilhotaria minha estante de livros e tentaria adivinhar quem sou com base no que leio. Eu lhe ofereceria vinho barato e mentiria que só gosto de bebidas doces, como se ainda tivesse o direito de bancar a garota inocente. Quando acordássemos, caminharíamos juntos até a padaria, onde tomaríamos café da manhã, contendo os risinhos a cada lembrança da noite anterior.Ele passaria o domingo comigo, apesar de dizer a todo momento que precisava ir embora.

À noite, a inevitável despedida, seguida da expectativa da manhã seguinte, no escritório. O medo do constrangimento, a ansiedade do reencontro. Ele me chamaria para almoçar e eu aceitaria. Um convite para o cinema na quinta à noite selaria nossa cumplicidade. Uma subida à serra no fim de semana, dois dias inteiros de frio, vinho, romance e sexo. As vindas ao meu apartamento se tornariam constantes e eu também passaria a frequentar a casa dele. Viriam as perguntas sobre o passado. Por que o primeiro casamento acabou? Nunca tiveram filhos? Ainda tem contato com ele? Por que você evita sua mãe? Você não vai me apresentar a ela? E aquelas palavras jamais proferidas, embora se escondessem por trás de todas as outras: o que há de errado com você?

A mensagem continua na tela do celular, gritando comigo, exigindo resposta. Apago-a. Volto a saborear meu Lambrusco e a assistir à minha série. Como é confortável meu apartamento.

Tapete Sujo

Filipe Smidt Nunes



- Eu já levei ele da última vez.
- Nada disso! Eu que levei ele hoje de manhã.
- Mas ele me pediu pra fazer xixi hoje ao meio dia!
- Não importa, o nosso acordo é eu levo de manhã e tu leva de noite.
- Mas não é justo, já que só eu que almoço em casa.
- Para de reclamar e leva o cachorro, coitadinho. Não tá vendo que ele tá se contorcendo todo?
- Para tu de fazer drama. Quem quis pegar esse cachorro foi tu!
- Olha só o que tu fez! Agora ele já fez xixi no tapete. Pega o pano e vai limpar!
- Eu não! Tu que deveria ter levado ele.
- Meu Deus do céu, tu não faz nada nessa casa!
- Pois é, acho que seria melhor que eu não morasse mais aqui então.
- Eu também acho! Se é pra ter um peso morto que só come a comida toda, peida toda a hora e não limpa nada, melhor eu me virar sozinha.
- Me faz rir! Tu não aguentaria uma semana sem mim aqui. Quero só ver a primeira lâmpada que queimar o que tu vai fazer. E ainda quero ver também se tu vai aprender sozinha a colocar de volta essa porta do armário que vive caindo.
- Eu vou me virar. Me virava antes de te conhecer e vou sobreviver agora que tu tá finalmente indo embora.
- Tá bom, tá bom! Eu vou embora. Mas com uma condição!
- Qual? Qualquer coisa pra me ver livre de ti.
- O cachorro vem comigo!
- Negativo! O cachorro é meu.