João Ninguém

Juciane Speck

João sai de casa às seis. Pão, manteiga e café preto na barriga. João trabalha em obra. É mais um entre outros tantos pedreiros na metrópole que se agiganta. João Ninguém.

No metrô, o obreiro espremido disputa lugar com trabalhadores, que parecem multiplicar-se a cada parada. “Graças a Deus”, é sua vez de abandonar o barco. João segue em direção à obra. O gigante de ferro cresce à sua frente a cada passo. Esqueleto de torre que não é torre, mas é tão alto como se torre fosse.

João, naquele dia, estranhou o movimento ao redor do arranha-céu, movimento de gente famosa, gente arrumada e bonita. Era o moço fotógrafo, que brincava com sua máquina em frente àquela bagunça empoeirada. Cimento e tijolos viraram modelos, não só o prédio, mas seus colegas também. Macacões sujos e caras pretas, assim eles sorriam pra lente. João foi artista naquele dia, sentado entre seus amigos, brincava de ser anjo. Eram os donos da obra e, como bailarinos, nela dançavam com sabedoria de mestres. Tudo se podia, diante do homem mágico, que transformava cada movimento, cada sorriso em um pedacinho de eternidade.

No final do dia, o fotógrafo foi embora, levou consigo toda a alegria, todo o sonho, toda a coragem daqueles artistas desconhecidos. A imagem de João e dos outros correu o mundo. A foto inaugurou uma carreira de sucesso. Muitos prêmios e ansiosas teorias sobre aqueles anjos do céu, que sentados suspensos pareciam ignorar o mundinho de formiga, que seguia lá embaixo.

João acorda às seis. Pão, manteiga e café preto na barriga. João Ninguém.

Desconstrução

Rafael Zenato

Já era tarde quando encontrou Chico. Quieto, retraído, numa mesa de bar. Papel e caneta na mão.

- Vem cá, você não é o cantor, aquele?

Chico bebia uma dose de uísque num copo improvisado, daqueles de boteco. Levantou os olhos de curiosidade.

- Você é o cantor, sim. Olha bem pra mim. Aquele do olho azul, como é mesmo o nome?

Chico esboçava um sorriso, se divertindo com a dúvida do desconhecido. Seu uísque não tinha gelo. Nem uma pedrinha sequer.

- Caetano! É Caetano! Não, espera. Caetano é aquele outro, o baiano.

Os olhos azuis eram encarados com atenção pelo homem.

- Chico... Chico Buarque! Rá! Eu sabia! Muito prazer - e estendeu a mão.

Chico bebeu o último gole do seu uísque. Cumprimentou o homem.

- Muito prazer. E você, quem é?

- Ah, eu não sou ninguém, não. Sou um desconhecido. Tenho a minha família, meus filhos, essas coisas. Meu emprego, graças a Deus. Trabalho no ramo de construção, sabe? Essa casa aí do outro lado da rua, tá vendo? Fui eu que ergui. Quer dizer, não tá pronta ainda. Mas a gente tá erguendo, eu e os colegas aí.

- Bacana, bacana mesmo - respondeu Chico.

- Olha, desculpa eu me meter assim... mas o que o senhor tava escrevendo aí? É letra de música? - perguntou o desconhecido.

- É, é uma letra, sim. Uma canção nova que eu tô trabalhando.

- Sobre o que é? - perguntou o homem, curioso.

- É sobre você - respondeu Chico.

O desconhecido ri.

- Ah, você é um brincalhão, Chico. Não é à toa que é artista.

Chico rabisca mais um verso sobre o papel. O desconhecido estende a mão mais uma vez.

- Não quero atrapalhar, não, viu? Vou deixar você fazer a sua música. Foi um prazer.

Enquanto o pedreiro seguia em direção à rua, Chico murmurava, como se falasse com a folha de papel.

- Toma cuidado ao atravessar a rua, hein. Vê se não vai morrer aí na contramão.

A Volta ao Borralho

Francisco de Assis Silveira

A pizza, intocada, esfriara. A discussão, acalorada, esquentara os ânimos. A arma que Cinderela apontava para o príncipe era presente que ele, agora alvo e alvo, lhe dera. Diria ela depois que puxaram o gatilho a frustração de não ser a única e o medo de voltar ao borralho. Mal sabia que a prisão pode ser ainda pior que o borralho. E o aventureiro príncipe transformado em bagagem de malas de mórbida viagem.