Acontecimento histórico

Volnei Zerbielli

Era domingo, eu e todos os viventes daquela estância, estávamos na frente da igreja esperando pelo maior, - e quem sabe até - o mais importante acontecimento histórico, que poderia acontecer naquele pedaço do Rio Grande, na época.

O dia tava bonito, ensolarado, o Minuano tinha dado uma trégua; pois tinha feito muito frio nos últimos dias, mas mesmo assim, tava todo mundo de poncho e casacão, que ninguém era bobo.

Aquele dia foi um dia especial, todo mundo vestido com a melhor roupa do armário. Nem nas missas, quando o vigário vinha a cada quinze dias, o povo se arrumava tanto. As prendas numa belezura só, a peonada toda de fatiota, gravata, bombacha e chapéu de aba larga, - estes não sobraram nenhum no bolicho pra contar a história -, todos queriam estar a preceito para o acontecimento.

Era um entrevero na frente da igreja; eu nem sabia de onde tinha saído tanta gente. Veio gente de todo lado, veio gente até da capital. Estes chegaram de carro, um tal de Ford T, mais conhecido por Ford Bigode. Teve gente que veio de carro de boi, charrete e a cavalo, afinal de contas ninguém queria perder o acontecimento que era por de mais importante.

Enquanto o dito fato não acontecia, o seu vigário, aproveitando a ocasião; ainda mais que tinha gente importante, vinda da capital, começou a discursar, a falar das coisas de Deus e do que representaria o tal acontecimento para a história das pessoas do vilarejo.

O povo já tava começando a ficar meio inquieto, e o vigário ali tentando controlar a multidão. Foi quando lá longe se avistou uma poeira levantando no estradão, ela foi aumentando à medida que chegava mais perto, com isso povo, que começava a ficar inquieto, começou a se ajeitar, dar a última conferida nas vestimentas; tava chegando a hora.

A poeira baixou. De cima da caçamba de um pequeno caminhão, armou-se um tripé, em cima desse tripé, uma caixa com um formato estranho, com um pano preto atrás. A multidão atenta aos gestos do homem da caixa no tripé, posicionada, aguardava o desfecho.

O fato acontecido naquele dia percorreu por vários lugares do mundo, possibilitou para algumas pessoas encontraram e reverem parentes distantes, outros puderam ver os seus antepassados e ter uma idéia de onde vieram, como surgiram, como eram as pessoas dá época.

Para as pessoas que lá estavam aquele dia, era um momento único e especial, pois de alguma forma e de alguma maneira, elas estavam dizendo para todos aqueles que um dia deixaram para trás e para aqueles que desejassem ver e saber como eles estavam.

- Eu estou aqui, estou feliz, muito feliz e quero compartilhar esse momento, imortalizado-o em um retrato.

Vida de Maria

Vitória Leiria

Maria ia à feira toda quinta feira. Acordava cedo, caminhava, escolhia, comprava, voltava, separava, guardava, limpava, temperava, assava, servia, recolhia, lavava, guardava, olhava, conversava, suspirava, às vezes chorava, às vezes ria. Quase sempre escrevia.

Em seus contos sempre tinha um João, uma Maria, uma peixaria, um gato, um cachorro, um bonde, flores, vida, historias, mimos, carinhos, conversa, passeios, trabalho, namoro, família.

Seus personagens homens levantavam, bocejavam, barbeavam, banhavam, vestiam, comiam, ouviam, riam, gritavam, falavam, cortavam, vendiam, dormiam, apalpavam, ironizavam, gargalhavam, esbofeteavam, beijavam, lavavam, palitavam, roncavam. Suas personagens mulheres sonhavam, suspiravam, beijavam, amavam, acordavam, cozinhavam, lavavam, serviam, concordavam, olhavam, sorriam, comiam, lavavam, caminhavam, feiravam, se matavam, se estressavam, envelheciam, se consumiam. A peixaria ladrilhava, reluzia, sangrava, tilintava, odorizava. O gato eriçava, curvava, arranhava, desprezava, miava, avisava, machucava. O cachorro brigava, brincava, rebolava, sujava, protegia. O bonde subia, apitava, ajuntava, acolhia, esfumaçava, oleava, encarecia, judiava, descia, era o que ele fazia.

As flores perfumavam o jardim de Maria.

As historias levitavam a mente de Maria.

A família era a vida de Maria.

Dava mimos quando ganhava carinho.

Conversava e passeava quando não trabalhava,

Namoro só com o João.

Essa era a vida de Maria...

James Joyce não mora mais aqui

Nei Rafael Filho

Todas as antenas do país transmitiram a voz do Presidente. O sinal enviado às tvs era sonoro, sem os números da contagem regressiva. Na tela, apareceu o Alvorada, a bandeira. Uma voz solene anunciou: Vai falar Sua Excelência, o Presidente da República.

De terno impecável e cabeça baixa, aos pigarros ajeitou a gravata. Falou de frente para a câmara.

- Chegou a mim a confirmação de algo inédito, percebido há dias pela defesa civil. Essa notícia foi autorizada pelo Chefe de Estado.

Pelo tom da fala, o país silenciou para escutá-lo. De testa suada e franzida, o discurso continha subtextos. De olho na Tv, o barman parou de enxugar a louça. O chofer fechou a janela, colado no rádio. Na vizinhança, murmúrios anunciavam boatos de um disco voador. O barbeiro, de tesoura em riste, supôs um meteoro do tamanho do Maracanã.

- Li uma vez, faz tempo, numa revista de ciência. Uma pedra enorme vai se chocar na Terra. Já aconteceu antes e acabou com os dinossauros.

O Presidente prosseguiu:

- Por favor, eu pediria para abrirem uma revista, um jornal, o que estiver à mão.

Barney, o caçula dos Lima, fez o que se pediu.

- Mamãe! Olha meu livro dos Três Porquinhos! As frases! Suimiram!

No país e no mundo milhares de mães foram à mais próxima estante de livros.

As letras desapareciam do papel numa velocidade espantosa, como se roídas por algum tipo de traça.

De novo o Presidente falou:

- Nossos computadores também foram atacados. Mantenham a calma.

- É o fim do MSN! Isso não está acontecendo! – exclamaram aos gritos, desesperados, os adultos, os adolescentes e a segunda infância.

Multidões foram às ruas, atirando para o meio fio, coleções, revistas, jornais. Bancas e livrarias, destruídas. Ao compulsar encadernações encontravam apenas fotos. O escrito ficou despido de qualquer impressão, das letras e dos números.

Escolas pararam de funcionar. Faculdades interromperam seus bacharelados.

Noutro pronunciamento, a autoridade anunciou:

- O próximo passo será formar diretrizes.

Mas ninguém prestou atenção. Corriam enlouquecidos, tropeçando em leptops abandonados pelo caminho.

A maneira de pensar e agir dos homens mudou. Surgiu um novo renascimento, o da memória. O ensino, da boca para o ouvido. As frases eram possíveis somente nos palcos e estúdios. Não escritas. Na tentativa de reescrevê-las no papel, ao se formar, duravam um ou dois segundos. Apenas.

- Saudades dos escritos – diziam em lamurias.

Ou com muito arrependimento:

- Se voltar ao normal, devorarei o “Ulysses” de James Joyce até o fim.

A televisão, durante as 24 horas, reprisava maestros regendo sem a partitura e muitos shows, centenas talvez milhares.

Um dos espetáculos, um concurso de calouros, era o “De quem é a frase?“, com crianças aparecendo no palco vestindo roupas em forma de números ou letras. Em grupos, reuniam sílabas, palavras e sentenças. Atentas ao contra-regra exaltado e, a seu comando, eram substituídas por outras, como peças de dominó, sob a repetida ordem: “Mudemos o uniforme: e já!”. Elas teriam de dar lugar às outras recém uniformizadas como vírgulas e pontos de exclamação para o texto recitado do romance “O Legado de Humbold”, de Saul Bellow..